As Cinco Lições de Psicanálise e além

Sigmund Freud realizou sua primeira e única viagem à América no ano de 1909, acompanhado de seus discípulos Jung e Ferenczi. Ele foi convidado pela Clark University para proclamar em cinco conferências, aos mais diversos interessados, que deram  origem ao texto de 1910 intitulado Cinco lições de Psicanálise. “Se eles soubessem o que estamos lhes trazendo…” disse ele a Jung, se referindo à peste da Psicanálise.

Freud inicia sua primeira palestra dando crédito ao doutor Josef Breuer por inaugurar a técnica psicanalítica da livre associação no caso de Anna O., publicado em conjunto nos Estudos sobre a histeria. Ele segue descrevendo resumidamente o caso de dr. Breuer e os sintomas que ela apresentava, comentando que um diagnóstico de histeria nada serve para a enferma e que pouco se tem para fazer por parte dos médicos quando não se trata de uma afecção orgânica do cérebro.

Aqui cabe um comentário sobre os efeitos do diagnóstico para o paciente na clínica atual. Diferentemente do que Freud afirma sobre a pouca mudança para o doente, hoje se sabe que o nome, o significante que dá sentido ao que o analisando está sentindo, pode não só atrapalhar o tratamento como agravar ainda mais os sintomas. Em uma realidade na qual o paciente pode pesquisar todos os tipos de enfermidades que o nome lhe dado teve ao longo de toda a história humana, ele pode se agarrar a esse significante e reforçar o seu modo de gozo já que seu Sujeito-Suposto-Saber classificou-o dessa maneira. Não há motivos para ceder à demanda do analisando por um nome que simplifique tudo e todos os seus sintomas, essa informação só serve ao analista como um norteador para o manejo da transferência e um referencial para a formação dos sintomas de seu paciente.

Continuando sua conferência, Freud faz uma crítica direta aos médicos que se deparam com pacientes histéricos. O médico, apesar de  seus estudos pomposos e do discurso de mestre para sustentar sua faceta de que tudo sabe, nada mais consegue fazer por um paciente histérico do que um leigo qualquer. A impotência perante a demanda incessante da histérica coloca em cheque seu saber e, como defesa, trata como uma farsa, um fingimento exagerado sem explicação médica. A exceção foi o dr. Breuer, que tratou Anna com “simpatia e interesse”, permitindo-a falar abertamente e usando inicialmente métodos hipnóticos para que alguma relação fosse formada entre os significantes que lhe pareciam soltos no discurso da paciente. Foi a própria Anna que deu o nome de “talking cure” para o que depois seria desenvolvido na regra fundamental da psicanálise. 

A descoberta de Breuer foi de que todos os sintomas da pacientes estavam carregados de traumas psíquicos que eram confirmados em seu estado hipnótico e que poderiam ser “suprimidos” quando alcançado sua origem na cadeia de lembranças patogênicas. O uso do método catártico pareceu se provar eficaz em aliviar os sintomas histéricos, mas apenas a curto prazo, requerendo uma nova “limpeza da chaminé” depois de certo tempo. “Nossos histéricos sofrem de reminiscências”, resumiu Freud. Sua teoria até então se centrava na fixação em que os neuróticos se encontravam dos traumas patogênicos e as consequências que eles causavam. Sobre a paciente, ele comenta da supressão de fortes excitações em momentos de angústia, ao invés de expressá-las em sinais de afetos, palavras e atos, o que gerou um solo fecundo para as situações patogênicas que depois retornaram como sintomas.

Ele termina sua primeira palestra admitindo que as ideias apresentadas ainda eram de uma psicanálise muito rudimentar e que muitas vezes não haveria explicações o suficiente para embasar sua teoria. Admite também que o uso da hipnose nos tratamentos é ultrapassado por surtir um efeito supérfluo e de curta duração, além de encontrar dificuldades de hipnotizar a maioria de seus pacientes e considerar um método “francamente místico”, sendo posteriormente substituído pela associação livre e uma topologia mais rebuscada do inconsciente.

Na segunda lição, Freud diverge de Breuer e Charcot ao abandonar o método da hipnose e trabalhar com seus pacientes em estados normais, usando uma técnica de Bernheim em que mesmo que o paciente chegasse em um ponto onde não se lembrava de certa memória, ele insistia que conseguia e que o paciente se lembraria no momento em que ele encostasse suas mãos sobre sua testa. Mesmo admitindo ser um processo laborioso e difícil à longo prazo, Freud tirou conclusões desse experimento antes de abandoná-lo. Com ele conseguiu afirmar que lembranças esquecidas não estavam perdidas, podiam ser recuperadas através de associações, mas alguma força as impedia de se tornarem conscientes. Foi assim que ele introduziu à sua platéia o conceito de resistência, a força que mantinha o estado patológico. É através dela que o sujeito mantém a repetição dos sintomas, protege seu gozo e evita o sofrimento retirando do campo da consciência aquilo que não quer saber.

Com isso Freud formalizou a concepção dos processos psíquicos das histéricas, ele considerava que, para a recuperação das doentes, era necessário afastar as resistências e se esse era o processo de cura, algo análogo a ele deve ter acontecido no momento em que se passou a memória em si. Aí entra o processo de repressão, o mecanismo que reprime a cena insuportável à consciência, aquela de um abatimento do real que não pode ser simbolizada, a causa patogênica da histeria. 

A partir dessas novas conclusões, Freud fez um estudo comparativo com outras experiências patogênicas e descobriu uma constância entre as vivências de suas histéricas: todas elas estavam ligadas com o afloramento de um desejo incompatível com suas exigências éticas e estéticas da personalidade. É esse mesmo desejo que cai vítima da repressão por ser incompatível com o eu do paciente, caso contrário lhe causaria intenso desprazer. 

O que Freud não menciona aqui, mas que é digno de nota é que mesmo que a histérica aceitasse sua demanda e a pusesse em ação, nunca seria o suficiente para satisfazê-la. Como todo o neurótico, a histérica trabalha a partir do recalque em sua negação à castração e, mais do que isso, ela se coloca na posição de ser o falo, o significante do desejo. Em seu desenvolvimento edípico, ela foi levada a acreditar que sua figura paterna lhe daria aquilo que tanto ansiava, mas logo em seguida era negada o privilégio. Por isso nunca se satisfará, sempre chegará perto do que quer e quando estiver ao seu alcance, desistirá e recomeçará a busca incessante.

Para melhor formalizar essa teoria, Lacan postulou o Discurso da Histérica como um dos quatro laços sociais, e que pode exemplificar o que acontece dentro de uma análise com esse tipo de neurótico:

(O discurso histérico)

O inconsciente da histérica, o Sujeito barrado ($), é o agente do discurso que demanda do Mestre (S1) que ele mostre sua substância, o saber (S2), para que prove sua índole através da produção de alguma coisa séria que responda sua demanda. Ao produzir o saber, o Mestre entra em uma posição de gozo, propondo que ela obtenha um saber, saber esse erotizado. Mas as perguntas repetitivas e incessantes da histérica a levam para um questionamento desse saber e o refuta, essa não suficiência é sustentada pelo furo, pela falta (objeto a) na histérica que não para de insistir por mais. Ela é, em sua natureza, auto contraditória no seu desejo, como afirmou o próprio Freud. Ela quer algo, mas causaría extrema angustia enfrentar.

 Freud continua sua palestra confessando que apenas com a exclusão da hipnose se poderia notar as resistências e repressões para formar um verdadeiro conceito do processo patogênico em seus pacientes. Segundo ele, a hipnose, mesmo escondendo algumas resistências e tornando mais acessível algumas noções inconscientes, também cria um acúmulo ainda maior posteriormente e torna inacessível tudo o que está além desse.

Os estudos com neuróticos levaram Freud a concluir que, na verdade, o mecanismo da repressão fracassou. Apesar de deixar de fora da consciência o desejo insuportável e poupar uma enorme soma de desprazer, ele ainda continua a existir no inconsciente. Como uma das máximas psicanalistas diz: o recalcado sempre volta, e é exatamente o que Freud expressa com o conceito de formação substitutiva, o reprimido volta de uma forma distorcida e irreconhecível a primeira vista, com os mesmos sentimentos de desprazer que antes tentaram ser colocados de lado.

Assim entra o sintoma. Com suas semelhanças indiretas com a ideia originalmente reprimida, ele é imune a defesas do eu e surge como um sofrimento interminável. Freud vê aí que um caminho pode ser traçado do sintoma, passando pelas formações substitutivas até a ideia reprimida. Para ele, se essa ideia conseguir retornar à consciência, superando as resistências, o paciente pode resolvê-lo de outra maneira com a ajuda do psicanalista. Deste ponto criam-se soluções não nocivas como a aceitação total ou parcial do desejo, a sublimação para uma meta irrepreensível ou se admite sua rejeição como sendo justa mas mudando o mecanismo de sublimação para uma condenação consciente. 

Em sua Conferência XXIII, “O caminho da formação dos sintomas”, proclamada em 1917, Freud dá mais substância ao seu conceito de sintoma ao dizer que decifrar o sintoma é o mesmo que compreender a doença e seu sentido. Ele os classifica como “atos prejudiciais ou pelo menos inúteis à vida da pessoa…”, mas ao mesmo tempo distraem o sujeito do que realmente deseja. O sintoma neurótico resultaria de um conflito entre o Eu e suas pulsões, é um acordo entre os dois, por isso é resistente. A libido do neurótico está ligado às suas experiências sexuais infantis, aí entra o sintoma para criar uma substituição da satisfação frustrada. É importante frisar que não é uma cena infantil que necessariamente existiu, pode ser apenas o imaginário dando conta do real, mas o psicanalista não deve-se ater ao que realmente aconteceu e sim à realidade psíquica do analisando; trabalha-se com a fantasia e não fatos. 

Na primeira clínica de Lacan, a do simbólico, existe uma conexão semelhante às ideias aqui apresentadas por Freud. De acordo com ele, o sintoma está calcado em um sentido, existe uma fixação de um significante no sujeito e a escolha dos objetos sintomáticos não é aleatória, ela tem a ver com a fixação desse único significante. O analista, portanto, poderia decifrar o significante pela escolha objetal e desafixar o sujeito para novos significantes e novos significados, fazendo-o circular na cadeia de significantes.

Em sua terceira palestra, Freud começa adicionando uma informação sobre as duas forças contrárias que atuavam na rememoração da lembrança inconsciente para a consciência. A resistência de trazer o material recalcado para a consciência teria um valor que seria equivalente à quantidade de deformação do material, ou seja, quanto maior a resistência, maior a deformação e consequentemente a diferenciação do sintoma com a representação do que é recalcado. Mas mesmo assim é preciso algum grau de semelhança entre a representação recalcada em um discurso indireto.

Na mesma linha de uma manifestação indireta do inconsciente, ele apresenta o conceito do chiste com a piada “E onde está o Salvador?”, na qual um pintor insulta indiretamente dois velhos ricos através de uma pintura, que se torna uma piada. Ele não os insulta na cara, mas cria uma alusão com omissão do que é seu verdadeiro desejo. O chiste é uma alusão de algo que se quer dizer encoberto por uma situação cômica, e isso pode ser direcionado aos outros ou à si mesmo como uma verdade mal-dita, um pensamento substitutivo mais ou menos distorcido.

Continuando sua argumentação acerca do material recalcado, Freud começa a introdução da associação livre, a regra fundamental, contando sobre sua solicitação aos analisandos que renunciem completamente sua auto-censura sobre os pensamentos que vierem livremente, afastando os variados juízos críticos que se possam ter sobre o valor do pensamento. Recomenda-se que comece o tratamento indicando ao paciente para que não faça uma seleção do que lhe vem, mesmo não tendo um sentido claro para ele e sobretudo se for algo desagradável, assim pondo o analista na trilha dos complexos reprimidos. É nesse material rejeitado que se encontra o material mais valioso para a interpretação do analista. 

Mas esse não é o único modo de se chegar ao material do inconsciente. Como uma outra manifestação deste, Freud passa a se ocupar de introduzir a interpretação dos sonhos. Mesmo os americanos sendo conhecidos pelo seu estilo positivista e pragmático, ele não pode se conter em apresentar a via régia para o conhecimento do inconsciente, a via onírica para a formação em psicanálise. Antes de iniciar sua excursão pelos caminhos trilhados pelo sonho, Freud expõe a semelhança entre o sonho e a alucinação, com suas ilusões sensoriais e ideias delirantes, poucos conseguem entender de fato que os dois estados possuem as mesmas características e também um significado por trás, principalmente os psiquiatras que tratam as alucinações como um sintoma a ser removido por fármacos que só agravam o recalque de uma tentativa de cura, da produção de um Significante Mestre, que nunca foi incorporado pelo psicótico em seu desenvolvimento, em momentos que a ruptura com o simbólico frágil é extremo demais e o imaginário precisa agir no real.

Voltando aos sonhos, Freud critica o desdém que costumamos tratar tanto os sonhos quando acordamos como os pensamentos espontâneos de um paciente, levando a crer que os dois possuem valor inestimável para a psicanálise. Esse menosprezo pode ser explicado pela quantidade de sonhos de aparência absurda para o eu, desconsiderando até aqueles que são muito claros e vívidos. Até chega a comentar o quão importante eram os sonhos na Antiguidade, com a crença de que revelavam mensagens do futuro, mas afirma que nunca se deparou com comprovações do misticismo dos antigos. Porém existem fatores já suficientemente espantadores sobre as verdades que os sonhos trazem consigo e a proximidade que se pode chegar do  inconsciente.

“Nem todo os sonhos são ininteligíveis”, afirma Freud. Um bom exemplo disso são os sonhos de crianças pequenas, que precisam de pouca ou nenhuma interpretação para encontrar o cerne do desejo com o dia anterior; é um sonho explícito. Os dos adultos não é tão diferente, para Freud estes também mantém o objetivo da realização de um desejo mas sofrem deformações que os da criança não. Ele divide o conteúdo dos sonhos em conteúdo manifesto do sonho, aquele que se colocam em palavras ao acordar de forma trabalhosa, tentando procurar um sentido para o que acabara de vivenciar, e os pensamentos latentes do sonho, na qual o verdadeiro sentido se encontra suposto no inconsciente do sonhador. Sendo o sonho mais uma das manifestações do inconsciente, Freud retorna à sua teoria de que eles também sofrem com as oposições do mecanismo de formação de sintomas, sendo o conteúdo manifesto uma deformação dos pensamentos oníricos inconscientes que passam por resistências até chegar na consciência. Essa é a maneira do eu se defender perante os desejos reprimidos do inconsciente, para que o sonhador não entenda o significado puro dos sonhos, assim como as histéricas não entendem o significado de seus sintomas. Como os sonhos das crianças, os dos adultos são uma maneira disfarçada da realização dos desejos reprimidos.

No seminário XI, uma das contribuições de Lacan para a interpretação dos sonhos, com um exemplo pessoal seu, foi adicionar uma função ao sonho: a de manter o prolongamento do sono. Ele pode se aproximar muito da realidade ao redor do sonhador para que esse não saia de seu estado de dormência e não retome a função da consciência. Essa função pode ser atribuída à ordem do imaginário para manter o sujeito fora do alcance do real eminente. Dentro do sonho, o toque do celular ao tentar despertá-lo pode ser transfigurado em um elemento do próprio sonho com propriedades parecidas.

Para explicar como se dão essas deformações entre o inconsciente e o consciente nos sonhos, Freud volta à sua obra da Interpretação dos sonhos (1900) para introduzir dois processos psíquicos que ocorrem entre esses dois sistemas: o deslocamento e a condensação. Esses dois conceitos foram primeiramente aplicados nas interpretações como um método de tentar compreender como os elementos aparentemente sem sentido de um sonho se articulam com o desejo, o deslocamento seria a substituição de um fragmento do sonho latente que não é suportável para o sonhador então se torna em outro com algum tipo de associação entre eles; já a condensação seriam diversos elementos originais compactados em um só. Eles também aparentam acontecer nos complexos reprimidos nos quais eles se transformam  em sintomas. Foram esses dois conceitos que levaram Lacan a pensar que, se o inconsciente é estruturado como linguagem, eles poderiam ser levados para o discurso do sujeito no formato de metáfora e metonímia. 

Continuando sua reflexão acerca dos sonhos, Freud adiciona que não é de se surpreender que elementos da infância aparecem neles, sendo que o inconsciente é atemporal em sua natureza. Essa é mais uma prova da importância dos primeiros anos de infância na constituição do eu, os desejos e características da criança anterior continuam a existir, mas sofrem com a civilização do sujeito. Existem complexos sexuais que se mostram recorrentes nos sonhos como também nos mitos e fábulas de uma cultura. E, para completar, ele comenta como os pesadelos também são manifestações da realização de um desejo, só é preciso interpretá-los e passar adiante da angústia, que é uma das reações negativas do eu perante a desejos reprimidos que se tornaram fortes. O pesadelo marca mais o eu do que qualquer outro sonho, ele se alastra na consciência no momento em que se acorda.

Partindo agora para um terceiro grupo de fenômenos psíquicos, Freud apresenta à sua plateia os atos falhos. Comum a todos, esse grupo pode incluir o esquecimento de palavras, nomes e fatos que já se aprendeu anteriormente, os lapsos verbais quando se fala e análogos quando se lê, as atrapalhações de tarefas simples, o ato de perder ou quebrar objetos, etc. Todos fenômenos que não se pensa duas vezes sobre são denominados de atos falhos e ações sintomáticas e casuais. Freud deu sua devida importância a eles e proveu-os de significado, sendo facilmente interpretados levando em consideração a situação em que ocorreram. Assim como os sintomas e os sonhos, atos falhos também possuem origens nos mesmos complexos e desejos recalcados, portanto também merecem a mesma atenção como um meio de formação substitutiva para ideias inconscientes. Assim são os psicanalistas, nada é pequeno demais ou arbitrário; não existem coincidências ou acidentes.

Freud, defendendo sua criação, termina essa lição comentando sobre aqueles que na Europa zombam de sua teoria, os que mal sabem do que se trata realmente ou leram superficialmente seus escritos e ainda acham que nada do que ele diz é cientificamente comprovado. Para ele, isso é só mais uma resistência, como todas as outras mencionadas, da qual usam para impedir a irrupção de seus próprios complexos inconscientes, não só tornando-os debilitados em sua capacidade de julgamento mas também ignorantes.

A quarta lição é a que toca no apuramento sobre o desenvolvimento dos desejos reprimidos dos neuróticos. É uma lição delicada por se tratar da vida sexual, algo que ainda era visto como tabu. De acordo com ele, os sintomas neuróticos são ligados às suas vidas amorosas e, portanto, os desejos patogênicos são de respaldo de fatores sexuais. Tendo ciência de que muitos consideram que ele superestima a vida sexual, Freud responde que isso é mostrado na prática, desde os estudos de Breuer. Para ele, o fato é que “as pessoas não são francas em matéria sexual” e fazem de tudo para colocar um véu sobre esse assunto. A hipocrisia da civilização tomou conta de tornar esse assunto algo a ser lidado atrás de portas fechadas, que nem médicos poderiam adentrar; só restou a psicanálise para liberar o erotismo.

Freud nos avisa que, para uma “cura definitiva”, não basta jamais olhar apenas para o momento do adoecimento do neurótico. A verdadeira origem estaria nas vivências da primeira infância até a puberdade, para assim explicar os traumas posteriores. Agora Freud apavora toda a sociedade do século XIX, de acordo com sua linha de raciocínio existiria uma sexualidade infantil e isso era incabível no moralismo Europeu e do resto do mundo. Ele tirou a pureza das crianças, a ilusão de que pensamentos sexuais não faziam parte da infância de conto-de-fadas com as quais os pais estavam acostumados. A criança vem ao mundo com seus instintos sexuais e se desenvolve para aquilo que se chama de sexualidade adulta. Fica claro para ele que os adultos nada se lembram dessa sua própria fase de sexualidade infantil pelo mecanismo do recalque tão incentivado na educação e na vida em sociedade, mas isso não as faz não existir e a análise de situações infantis pessoas pode claramente comprovar sua existência.

Para melhor explicar o que está dizendo e acalmar as mentes pervertidas em sua platéia que tendem sempre a vagar ao extremo, ele começa esclarecendo que o instinto sexual da criança é ainda independente da função de procriação, sendo muito complexa e composta por elementos que procedem de diversas fontes. São sensações de prazer que, como analogia, denominou-se de prazer sexual já que a principal fonte desse prazer é a excitação apropriada em certos lugares do corpo suscetíveis a estímulos, que, além dos genitais, são os orifícios da boca, ânus e uretra, mas também a pele. Essas são as zonas erógenas.

Freud apresenta agora a fase do autoerotismo da criança, na qual a satisfação é encontrada no próprio corpo e o outro ainda não entrou em cena. É a partir daqui que surge o narcisismo primário, uma fase em que o infans desconsidera o objeto, o mundo gira em torno dele e não existe um “eu” que o separa do Outro. Também se manifestam aqui os componentes instintuais do prazer sexual, da libido, e eles aparecem como pares de opostos de acordo com Freud: o sadismo e o masoquismo, o voyeurismo e o exibicionismo. É um bebê perverso-polimorfo por excelência, perverso por não considerar o outro para além de um objeto de prazer e polimorfo por ter diversas zonas de prazer disponíveis. 

Mas o bebê percebe que não consegue sobreviver por si só, é preciso de uma escolha de objeto, geralmente a figura materna, para dar conta de seus instintos de autoconservação. Ele precisa de um Outro para que possa ser alimentado e cuidado. Posteriormente a busca de auto-prazer diverge para duas direções principais: a primeira se volta à zona genital para se pôr a serviço da procriação e o ato sexual propriamente dito, e a segunda para a escolha de um objeto que deixa para trás o autoerotismo e traz consigo o narcisismo secundário, no qual um outro é incluído na equação e os instintos sexuais passam a procurar satisfação na pessoa amada.

Claro que como isso nunca seria aceito no fim da era vitoriana, Freud também pontua que muitos desses instintos sexuais são severamente punidos se vistos acontecer por uma criança. Essas repressões, mesmo antes da puberdade, são o que dão origem ao pudor, o nojo e a moral idealizada que se tanto prega quando adultos. Quando o sujeito se depara com a puberdade, com a crescente quantidade de hormônios e necessidade sexual, ele é confrontado com todas as resistências criadas no passado e isso acarreta nos sintomas que se vê nos adultos já que os instintos submetidos à repressão são impossíveis de reavivar, principalmente aqueles os impulsos relacionados ao excremento e a fixação nas pessoas da primitiva escolha de objeto.

Freud segue sua lição com comentários sobre “patologias” que podem vir a se formar de acordo com o desenvolvimento sexual infantil e uma possível regressão para fases anteriores dependendo do caso. Ele inicia dando o exemplo das perversões como no caso de instintos parciais que não se submeteram totalmente ao domínio da zona genital, criando para o sujeito uma meta sexual própria (fetiche). Outras vezes, o autoerotismo não é superado, a equivalência original dos dois sexos como objeto sexual não é superado e, de acordo com Freud em 1910, isso resulta em uma inclinação homossexual na vida adulta. Essas são as perversões e infantilismo adulto que depois serão reformulados para uma teoria muito menos conservadora. Nessa época ainda se via a homossexualidade como uma patologia mas ele próprio muda o seu pensamento, como se verifica em 1935, ao responder a uma mãe que estava preocupada com a sexualidade do filho, dizendo “Não tenho dúvidas que a homossexualidade não representa uma vantagem, no entanto, também não existem motivos para se envergonhar dela, já que isso não supõe vício nem degradação alguma.” Já a perversão passa por muitos desdobramentos na teoria psicanalítica até se tornar uma das três estruturas que incorporam todos os seres humanos.

Assim como a perversão, a neurose também é fruto de um desenvolvimento sexual prejudicado. “As neuroses estão para as perversões como o negativo para o positivo”, diz Freud, e com isso ele quer dizer que, diferentemente das perversões, os complexos e formadores de sintomas da neurose estão atuando a partir do inconsciente, já que sofreram um recalcamento devido a castração em que passaram. Enquanto a perversão passa por uma castração denegada, ela não é aceita e portanto não existe uma lei como para os neuróticos.

Contrário ao que se pode imaginar, o termo “sexualidade” na psicanálise é bem mais amplo do que o do senso comum. Freud assumiu isso e até os dias atuais estamos tentando retificar o mesmo. Não se usa o termo limitando-o a procriação ou ao sexo, isso só limitaria a compreensão das perversões, das neuroses e da dita “vida normal”. Sem ampliá-lo, não se vê a significação dos primórdios da vida amorosa física e psíquica da das crianças. 

Após esse foco nas manifestações somáticas que podem ocorrem no desenvolvimento infantil, Freud decide dar um enfoque nas manifestações psíquicas que ocorrem nas crianças, começando pela escolha de objeto primitiva, derivada de sua necessidade de amparo. No início qualquer um ao seu redor pode fazer esse papel, mas logo se dá lugar a uma escolha entre dois principais, o que faz a função de pai e a função de mãe. Durante a análise e mesmo na observação direta de uma criança, pode-se perceber que ela toma especialmente um deles como objeto de seus desejos eróticos, provando elementos de excitação sexual. E essa relação é uma via de mão dupla, existe um estímulo dos próprios pais que mostram características de uma atividade sexual, mesmo que inibida em suas metas. Era comum o pensamento que o pai prefere normalmente a filha e a mãe o filho, como consequência, o menino deseja estar no lugar no pai, portanto nos olhos da mãe, e a menina no lugar da mãe para estar nos olhos do pai. 

Há dois lados dessa relação, desses sentimentos despertados, de um ela é afetuosa e de natureza positiva, mas do outro é hostil e negativa. Esse complexo reprimido continua a ter um efeito essencial no inconsciente, é o complexo nuclear de toda e qualquer estrutura psíquica. O complexo de Édipo é um dos pilares da criação da psicanálise, é um marco antropológico da barreira do incesto para a completude dos desejos infantis. É inevitável que a criança tome os pais como objetos de sua primeira escolha amorosa, mas não se pode tornar uma fixação permanente e sim um modelo para futuras relações, a castração deve fazer o seu papel na separação, caso contrário a estrutura da perversão e até mesmo psicose entrará como uma possibilidade de desfecho. 

A quinta e última lição que palestrou na América começa com uma afirmação que resume pontos de todas as outras anteriormente mencionadas: o adoecimento acontece quando não há possibilidade de satisfação das necessidades eróticas na realidade, portanto o que lhes sobra é recorrer à doença para uma satisfação substitutiva. Claro que isso não constitui uma atividade da consciência, mas existe uma recusa de abrir mão dessa fantasia por parte do sujeito enquanto for incerto que a realidade lhe dê satisfação o suficiente. Existe um ganho de prazer com a doença, mas ela se dá ao retorno para fases anteriores da vida sexual onde a satisfação nunca esteve ausente. Freud compôs duas vias para essa regressão, uma temporal na qual se nota uma regressão nos estágios de desenvolvimento erótico, e uma formal que usa os meios originais e primitivos de expressão psíquica. As duas vão na mesma direção, a da volta para a infância e na produção de um estado infantil da vida sexual.

Freud comenta em seguida algumas saídas possíveis para essa repressão da qual todos sofremos. Existe a possibilidade de uma realidade bem-sucedida onde as fantasias se realizam e que as demandas são satisfeitas, mas quando isso não é alcançado devido à resistências do mundo externo ou de “fraquezas” pessoais, o sujeito recorre ao afastamento da realidade para um mundo de fantasias cujo o conteúdo se torna sintomas. Outra possibilidade, se as condições forem favoráveis, é a da sublimação a partir das fantasias para obras de arte ao invés de sintomas. Na época desta palestra, Freud ainda não havia desenvolvido  sua teoria das estruturas clínicas completamente, então ainda se falava de uma “normalidade do indivíduo” que depois foi desmentida para simplesmente a neurose como predominante no mundo. Nesta lição, ele cita uma formulação de Jung que chega perto disso: os neuróticos adoecem dos mesmos complexos com que também nós, os sadios, lutamos.

Outro ponto que não poderia deixar de comentar sobre o tratamento das neuroses e que daria credibilidade às  forças instintuais sexuais é o fenômeno da transferência. Ainda pouco desenvolvido por Freud, ele o via como uma certa medida de impulsos afetuosos da parte do analisando dirigidos ao analista, tanto em um sentido amoroso como hostil, mas que de modo algum seria baseado na realidade e sim em velhas fantasias e desejos inconscientes. É dentro da análise, da transferência, que o sujeito pode reviver os impulsos sexuais inconscientes que foram reprimidos na infância e, dessa forma, encontrar outras saídas além do sintoma. Ele próprio admite que não há espaço o suficiente para se estender no campo da transferência dentro de uma palestra, sua complexidade requer uma extensão de seminários inteiros. Ela pode ocorrer espontaneamente em todas as relações humanas, mas é apenas através de uma análise que consegue se observar por si próprio os seus efeitos dentro das neuroses. 

Uma questão que se impõe à psicanálise, devido a sua exploração de conteúdos inconscientes, é se ela não pode ser prejudicial à toda a construção imaginária de uma cultura fundada em regras e morais já que pretende trazer conteúdos recalcados a superfície. Como contra argumento, Freud recorre à uma analogia com um cirurgião que deve mexer no foco da doença e examinar as feridas para conseguir trabalhar, assim funciona com um psicanalista. É preciso acionar o botão da angústia para que se possa alcançar o cerne do problema, o acréscimo da dor é para o bem da análise. E, assim como um cirurgião no pós-operatório, o trabalho do psicanalista é muito bem sucedido se feito de forma correta. Além disso, a experiência nos ensina que os danos de força psíquica e somática de um desejo reprimido são incomparavelmente maiores quando se está no inconsciente do que quando pode ser debilitado ao se tornar consciente. O ponto que Freud chama atenção aqui é que o inconsciente não é influenciado pelo eu, portanto, se o desejo se mantém inconsciente, não se sabe por onde ele irá imergir, mas com certeza irá. O trabalho psicanalítico não só não ameaça a civilização como promove um substituto melhor para saídas incontroláveis do recalcado.

Freud mostra-nos a seguir três desfechos possíveis para uma análise bem sucedida. Com o primeiro se tem a substituição da repressão por uma condenação realizada com os melhores recursos. Assim se pode domar os instintos reprimidos que eram inutilizáveis na época infantil em que o eu não sabia o que fazer com eles e usar a atual maturidade para enfrentar aquilo que lhe é hostil. O segundo leva em consideração que os instintos inconscientes revelados podem ser colocados em prática como se desejava se não fossem interrompidos anteriormente. Muita energia é gasta por parte do neurótico com a repressão, energia essa que pode ter um grande valor, como por exemplo no uso da sublimação para os instintos sexuais que se aproveitavam para uma meta mais elevada e socialmente valiosa, “suspensa a repressão, está novamente livre o caminho da sublimação”. O terceiro desfecho é simples: precisamos deixar o moralismo de lado e aceitarmos que humanos são animais sexuais, com desejos e fantasias que precisam ser colocadas em prática. A restrição da sexualidade não pode ser levada longe demais, caso contrário a humanidade entraria em colapso.

Essa foi uma série de palestras que conseguiu englobar grande parte da teoria psicanalítica e apresentá-la ao Novo Mundo, com a esperança de difundir seus conhecimentos além de oceanos. Seria impossível englobar todos os seus achados sobre o inconsciente mas Freud deu o seu melhor para encorajar a disseminação desse novo método de olhar para o ser humano. 

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