Do sintoma ao sinthoma

Lacan inicia seu 23º seminário dizendo que “sinthoma é uma maneira antiga de escrever o que posteriormente foi escrito sintoma”. Essa nomenclatura deve ser interpretada com seu neologismo introduzido no Seminário XIX: a lalíngua. Essa por sua vez se difere da linguagem; ela é a linguagem do Real e se encontra entre a linguagem do desejo (o inconsciente reprimido freudiano) e a linguagem do gozo (o inconsciente real de Lacan). Lalíngua se refere a linguagem inconsciente baseada em homofonias, aliterações, obliterações e equívocos, que circulam sobre o objeto a como objeto causa do desejo. Foi pela subversão da linguística de Saussure em sua linguisteria que Lacan evidenciou a linguagem do inconsciente. “A linguisteria é uma espécie de lingüística da sintomática histérica, é um estudo de uma linguagem conversiva – uma linguagem que é falada pelo sintoma enquanto inscrição corporal, de um real que insiste, na interdição do desejo, em uma castração por simbolizar” (Peixoto, 2003, p. 45). 

Se o neologismo linguisteria combina linguagem e histeria, deve-se salientar que o discurso do sujeito em análise é essencialmente histérico, não importando as especificidades de sua estrutura. As perguntas  incessantes da histérica a levam para um questionamento do saber do analista e o refuta, essa não suficiência é sustentada pelo furo, pela falta (objeto a) na histérica que não para de insistir por mais. Como comparação, é possível pensar que o S1 da cadeia significante se apoia na lalíngua e no sinthoma, enquanto o S2 ressignifica para a linguagem e o sintoma. Lalíngua é a língua do gozo real.

Desde 1955, é pelas neuroses que temos o modelo da constituição subjetiva e, por conseguinte, do sintoma. Decerto, tanto na psicose como na neurose, é em relação a estrutura da linguagem que o sintoma se constitui. Pensava-se uma estrutura psicótica como variante da neurose e podemos ver claramente essa submissão se considerarmos que o Esquema I, apresentado em “De uma questão preliminar…”, não passa de uma deformação do esquema R. O esquema designado ao caso de psicose traz uma dupla ausência se comparado com o da neurose: a do Nome-do-Pai, no simbólico, e a do falo, no imaginário. O mesmo acontece com o sintoma: ele é visto, nas psicoses, como uma variante falha, na qual o significante aparece no real.

Foi em 1975, com o Seminário XXII, que essa correlação entre as estruturas se inverteu. Nele, o sintoma deixa de ter sua propriedade simbólica para ser definida à partir das psicoses como uma função da letra, sendo seu núcleo no real. O sintoma não responde mais ao sentido e ao Édipo, não está mais ali para se fazer compreender. Ele deixa de ser uma função da metáfora, que fixava o significante no significado, e passa ser função da letra, que admite o gozo sem o Outro. 

Na segunda clínica, o Nome-do-Pai deixa de ser o significante da lei no Outro. Ao contrário, a nova teoria do sinthoma pressupõe que “não existe Outro do Outro” ou ainda mais radical: “O Outro não existe” (A barrado). Porque esse Outro é caracterizado pela ausência de um significante que o representaria como “Um”; não há um Outro ideal, completo, apenas aproximações. Como um resultado dessa mudança teórica, o pai só pode garantir sua função com base em sua enunciação, que deve transpor algo de sua perversão (pére-version), ou seja seu gozo e seu desejo. Essa é uma condição necessária para a criança se voltar ao pai a fim de achar nele os meios necessários para construir um sintoma que segure os três registros juntos. O pai perde seu estatuto de significante para se constituir como um sintoma, ou sinthoma.

O conceito de sinthoma implica que o sintoma é uma forma de gozo ao invés de uma metáfora, como pensado na primeira clínica. Isso explica sua impermeabilidade à mudança. O gozo procura satisfação e, no processo, pode se tornar sofrimento quando a pulsão transborda as defesas e barreiras geradas pelo princípio de prazer. O sinthoma repara enquanto o sintoma danifica tanto na forma de desprazer como na forma de prazer transformado em dor. 

Existem três tipos de gozo de acordo com a clínica do Real. O primeiro seria o gozo do Outro, encontrado entre o Real e o Imaginário. Ele está, portanto, fora da cadeia significante, então não remete ao Outro da linguagem, mas sim ao corpo como tal. Lacan pontua em Oniricar? (1975) que “não existe gozo do Outro enquanto tal, não existe garantia, passível de ser encontrada no gozo do corpo do Outro, que faça com que gozar do Outro, isso exista”. É por ele ser um gozo impossível, fora do significante, que se origina a angústia como resposta à essa impossibilidade. 

 O segundo seria o gozo fálico, tratado na seção 3 do seminário XXIII como o gozo entre o Simbólico e o Real, que liga o falasser (ser falante, não importando sua estrutura) ao significante e uma forma parasitária de poder. Ele é um gozo de categoria universal, linguageiro e fora do corpo. É a partir deste que se origina o sintoma, como uma irrupção do real desta forma de gozo.

A terceira forma de gozo é o do sentido, entre o Simbólico e o Imaginário. É a partir dele que irrumpe a inibição, deste gozo imaginário que toca o corpo, de um gozo cifrado numa imagem, de um traço imaginário que marca o corpo.

No Seminário XXIII, o Real aparece como o criador ao invés de destruidor de ligações. Isso é consistente com Lacan definindo o real como “ex-sistente” e também como enodamento: o Real detém, para e mantém os registros juntos. O Real vive ou “ex-siste” dentro do Simbólico em forma de lalíngua, que aparece nos buracos da estrutura simbólica.

O traço unário, o Nome, como um processo de nominação, é fazer um nome para si, apropriando-se de um nome-do-pai, como também suportar a castração simbólica, não usando o nome para encobrir a falta mas para revelá-la.

Através de seu sinthoma em Finnegans Wake, ele conseguiu adquirir um nome próprio e se assujeitar sem o nome-do-pai. Quando o sintoma se torna sinthoma, o sujeito consegue se identificar com a própria produção e é isso que vai constituir o fim da análise na clínica do Real; não se procura responder a demanda de um Outro. Para criar um sinthoma, o sujeito deve passar por uma angustiante fase onde os três registros se encontram soltos, para depois serem unidos pelo sinthoma, o traço mais subjetivo de cada um. Lacan reitera que o nome próprio não deve ser nem idealizado e nem desvalorizado, mas sim reduzido ao mais ordinário substantivo; essa redução causaria um “alívio” ao sujeito do inconsciente. 

Gostaria de me ater agora a apresentação da topologia do sistema RSI. Diferentemente da representação imaginária de seus esquemas L, R e I, a topologia permitiu Lacan a dizer sobre o lugar vazio. Pelo estudo dos espaços na sua propriedade, a topologia fez possível dizer do Real, do irrepresentável por excelência. A topologia é uma ação, ela se faz ao invés de representar imaginariamente algum conceito; Lacan costumava usar materiais físicos para introduzi-la em seus seminários. Passamos de uma forma de representação com significação específica em seus esquemas para uma maneira de confrontar seus ouvintes com a possibilidade de criação, de invenção com o que foi apresentado. Os nós especialmente abrem espaço para o construir e desfazer, para novas formas de (in)compreensão e de inesperado. 

Com a clínica do nó borromeano, vê-se a separação entre o imaginário e o simbólico, cada um deles se sustentando autonomamente um do outro. Mesmo sendo denominado de nó, os três registros não são solidários, eles têm a possibilidade de serem enodados, mas não necessariamente se encontram assim.

A imagem acima é o esquema mínimo dos nós. Cada um deles está inteiramente desconexo um do outro, autônomos, apenas sobrepostos. Não há nada que os mantém juntos. Esse conjunto de anéis representa o momento anterior da formação de um sinthoma em uma análise, onde o sujeito se encontra fragilmente relacionado com a realidade que o cerca; parece estar prestes a perder o sentido.

Já neste nó temos dois registros, um em cima do outro, e um terceiro que passa por baixo daquele que está embaixo e por cima daquele que está em cima. As três estão presas, enodadas borromeanamente, graças a esse terceiro registro, o do real. Mas fica claro que não existe uma hierarquização, pois, se ao menos um dos registros se desprender, os outros dois consequentemente se encontram soltos. Resta saber o que é que, para um sujeito, mantém o nó unido dessa maneira. 

O nó do eu particular de Joyce têm como suplência topológica o quarto anel, o sinthoma. É graças a ele que o imaginário se articula com os outros dois registros, formando uma prótese de eu e preservando a integridade psíquica.

No nó de três, “o imaginário, o simbólico e o real são uma única e mesma consistência, e é nisso que consiste a psicose paranóica”  (Lacan, 1975-1976/2007, p.87). A personalidade, o eu, e a paranóia não se distinguem pois há apenas uma única instância; se encontra congelado na identificação ao Ideal (I). Consequentemente, a identificação fixada “impede que o sujeito se perceba como dividido, sujeito da falta” (Quinet, 2002, p.20), mas também o resguarda da dispersão imaginária.

Por fim, gostaria de propor a solução mais elegante que conheço para a inexistência de um nó da esquizofrenia ensino de Lacan: o nó de Whitehead. Nele podemos aplicar a definição lacaniana dos anos 50 em que todo o simbólico é real, sendo indistinguível a palavra da coisa. 

O mesmo nó pode ser aplicado para a melancolía, com continuidade do real e imaginário. Essa junção tem como consequência colocar o eu e suas ideações em uma relação direta com o real, com o vazio de significação. A perda do objeto abala diretamente com o eu ideal, colocando ele fora da cadeia significante. Já que não existe um i(a) sustentado pela função fálica, a perda coloca o sujeito cara-a-cara com a foraclusão. Desta perda cria-se um furo na cadeia, que se esvai a libido e causa um esvaziamento do eu. 

E também para a manía, com continuidade do simbólico e imaginário.O maníaco manifesta sua negação da realidade com a fuga de ideias e um discurso metonímico. Ele está disperso no infinito da linguagem, com seu eu preso aos significantes. O corpo ignora suas exigências reais e o torna incansável. 

Na mania, convém esclarecer desde logo que é a não-função do a que está em causa, e não simplesmente seu desconhecimento. O sujeito não se lastreia em nenhum a, o que o deixa entregue, às vezes sem nenhuma possibilidade de libertação, à metonímia pura, infinita e lúdica da cadeia significante. (SE X, p. 365)

Comments (1):

  1. Contador De HistóriasParaAdultos

    dezembro 1, 2020 at 12:43 PM

    Obrigado por este artigo.

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