As fórmulas quânticas da sexuação

Para melhor definir o campo da sexualidade lacaniana, o psicanalista criou uma tabela de fórmulas que englobam as definições de um homem e das mulheres. Essa é a fórmula da sexuação proposta integralmente no Seminário XX:

S, barrado ? alienado pela/na linguagem, como castrado

? ? falo como significante do desejo/ gozo

?x ? função fálica, associada a castração simbólica

a ? objeto causa do desejo

S(A, barrado) ? significante da falta no Outro

La, barrado ? a mulher não existe

x ? sujeito

?x ? quantificador existencial ? “existe pelo menos um sujeito…”

?x barra ? “não existe nem mesmo um x…”

? ? quantificador universal ?  “para (qualquer e) todos os xs…”

? barra ? “nem todos os xs…” ? gozo do Outro

As formulações matemáticas do lado esquerdo se referem ao Homem e as da direita se referem às mulheres. Partiremos então de alguns pressupostos para depois iniciarmos as correlações possíveis na fórmula.

  • Função fálica

O falo é uma potência, o que (teoricamente) poderia preencher a falta. Se pensarmos no Édipo, ele é um significante que vem a significar aquela parte do desejo do Outro que vai além da criança, é o S1 por excelência. Considera-se o falo como o significante do desejo, relacionado mas não igual ao objeto a, significante da causa do desejo. 

Um dos axiomas lacanianos nos diz que o desejo do homem é o desejo do Outro, ou seja, o Outro constitui o nosso próprio desejo à partir do desejo Dele. Mas a linguagem, esse Outro, é falho, tem furos, é atravessada pelo Real. O Outro não é completo. 

Enquanto a castração se refere uma perda primordial que coloca a estrutura do sujeito em movimento, o falo é o significante dessa perda. A função fálica é a que institui a falta, isto é, a função alienante da linguagem

  • Objeto a

É o objeto causa de desejo, remete a completude perdida e que sempre foi uma ilusão imaginária. O a pertence ao registro do Real, sendo ele impossível de ser nomeado ou alcançado. Ele está sempre em um movimento metonímico entre os significantes, o desejo é inominável, portanto cria demandas que deslocam-se de um objeto para outro, incessantemente. 

  • “Não existe a relação sexual”

Não há nenhuma correlação direta entre homem e mulheres, pois são constituídos de formas diferentes e não se veem do mesmo jeito. Não há uma consonância ou simetria entre homem e mulheres, Freud já afirmava que “a masculinidade e a feminilidade puras permanecem construções teóricas de conteúdo incerto”.

Partimos agora para a explicação da fórmula:

  • Homens

São totalmente alienados na linguagem, todos, sem exceção, são assujeitados à castração simbólica. Ou seja, os homens são completamente determinados pela função fálica, eles formam um conjunto, podendo assim ser considerados como um todo, porque existe um elemento que ex-siste e os delimita. Esse elemento é o pai da horda primeva e o tabu do incesto, para esse pai existiu a relação sexual pois a função fálica era foracluída. Infringir esse limite imposto pela morte do pai erradicaria o ponto de ancoragem da neurose: le nom-du-père

Todos os homens possuem uma relação com o objeto a, a saber, fantasmática, não com uma mulher em si mas com seu semblante de a. Os homens são fadados à um único tipo de gozo, o fálico, entre o real e o simbólico. 

Na primeira linha da esquerda, temos: . Lê-se: Existe um sujeito (x) que não se submete à função fálica. Ou seja, o pai da horda primeva, o pai Simbólico, cria um conjunto fechado de homens ao ser a exceção da regra fundamental da castração que os une. 

Na segunda: . Significando que todos os x’s (sujeitos humanos) verificam a função fálica, todos estão submetidos a castração. Isso inclui, mas parcialmente, aqueles identificados como mulheres. 

A parte inferior, das modalidades de fantasia, diz que é o homem que se porta como possuidor do falo, enquanto seu Sujeito Barrado, completamente dentro da ordem simbólica, procura na mulher seu objeto a, causa de seu desejo. 

  • “A Mulher não existe”

Não é possível encontrar nem mesmo uma mulher para quem a função fálica seja totalmente inoperante, mas existem aquelas que conseguem ir além desta. Não há um significante mestre que define A mulher, sua essência como tal. Existe uma pluralidade de mulheres e elas devem ser tidas pela sua singularidade. Elas ex-sistem, são parte da ordem do Real. 

Portanto, elas são não-toda, existe a possibilidade de não se submeter totalmente a função fálica, podendo procurar um significante no Outro. Elas conseguem um gozo além do fálico, o gozo do Outro, encontrado entre o real e o imaginário. 

Vendo as fórmulas, temos na primeira linha: . Ou seja: não existe nenhum sujeito (x) que não esteja verificada a função fálica. Mulheres, como seres falantes, estão submetidas à castração. Já que não há uma exceção, um elemento ex-sistente para a construção de um conjunto, elas são vistas em suas singularidades.

Na segunda linha temos: , o que é uma contradição do que foi dito até aqui. Lê-se: nem tudo de uma mulher está sujeito à lei do significante, à castração. Lacan admite que isso é uma possibilidade de gozo a mais nas mulheres, mas não necessariamente acontece. (“All universal propositions must be limited by an existence that negates them.”) Em suas modalidades de fantasia, as mulheres são representadas pelo artigo La (a) barrado para retificar a impossibilidade de A mulher existir. Ela possui duas formas de gozo: uma que demanda do homem que este assuma a posição fálica, e outra que não depende de um homem e sim do Outro para conseguir satisfação em um significante que defina sua feminilidade.

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