A Neurose e sua entrada nos gozos

O próprio Lacan afirma que sua contribuição mais valiosa para a psicanálise foi o objeto a. Diferentemente das formações do inconsciente, homólogas à transferência e com sua matriz linguageira, o objeto lacaniano traz a marca de uma ação.  O conduz diretamente ao real, não se apresenta como significante à maneira de um dito. Ele se manifesta como um fazer, seja por um delírio, uma passagem ao ato, alucinações ou lesões psicossomáticas. É uma ação bem definida que envolve o corpo real; heterogênea à fala do analisando e, consequentemente, diretamente atrelada ao gozo.

Seu texto A significação do falo (1957-1958) foi o limite de seu “retorno à Freud”. Ele é um divisor de águas entre a teoria freudiana do falo e a primeira clínica de Lacan. Ao voltar para Freud em Organização genital infantil (1923) e Dissolução do complexo de Édipo (1928), Lacan não cometeu a mesma falha básica dos pós-freudianos de igualar “falo” à “pênis”. Ele interpreta o conceito de falo como um significante, mais especificamente o significante do desejo, o fruto de uma operação de redução entre necessidade e demanda (demanda – necessidade = desejo). Ainda com base os dois textos freudianos, Lacan contraria a afirmação feita de que “a anatomia é o destino”, já que a premissa fálica nada tem à ver com o órgão humano em si.

Em seu texto de 1957, Lacan afirma que o falo “ocupa um certo lugar na economia do desenvolvimento do sujeito e é o suporte indispensável da construção subjetiva, pivô do complexo de castração” (Escritos, p. 358). Desde Freud esse complexo é fundamental na estruturação do sintoma e na ascenção do sujeito à uma posição sexual. Já se podia levar em consideração a vital posição de um terceiro na situação edípica mãe-falo-criança, que deveria ser interditada pelo significante Nome-do-Pai para que a criança fosse integrada na ordem simbólica e na dialética do desejo. 

Mas algo ex-siste nessa equação de subjetivação da criança: o gozo. O único gozo que não se encontra fora da cadeia significante, portanto está aparelhado à linguagem, é o gozo fálico. “A castração significa que é preciso que o gozo [completo] seja recusado para que possa ser atingido na escala invertida da lei do desejo” (Escritos, p. 841). Ao renunciar o desejo incestuoso de ser o objeto que completa o Outro, emerge o gozo interditado pela Lei do significante. 

O gozo fálico está entre o real e o simbólico, ele é opaco de sentido e encontra-se separado do corpo. É o falo imaginário negativizado: (-?). Esse é definido por Lacan como o “gozo do idiota”, que se estabelece, solitariamente, na não-relação com o Outro. É um gozo masturbatório, que não visa reconhecimento. Ele contrabalanceia o sentido da fala e não faz laço com outros significantes. 


Seu segundo movimento de retorno que irei analisar se encontra no Seminário X, mas, desta vez, Lacan não prioriza o Complexo de Édipo. Ele passa a privilegiar o operador econômico da angústia, introduzido por Freud, para dele extrair o gozo positivado.

É crucial assinalar um equívoco teórico possível: não é a angústia de castração que constitui o impasse de formação neurótica. Aquilo de que o neurótico recua não é a castração, mas sim fazer sua castração impactar o Outro. No lugar dessa falta no Outro, o sujeito é convocado à dar uma resposta a falta, um signo de sua própria castração. 

Até então, o sujeito foi angustiado pela castração, era um agente passivo em seu sofrimento. Seu único movimento era uma repetição inútil para tentar recuperar a completude imaginária com o Outro através do mecanismo da fantasia. Com a inserção do Nome-do-Pai na relação, o sujeito sucumbe a sua posição de castrado. Ele escolhe (forçadamente) aceitar a falta para se inserir no simbólico e ter a possibilidade de um desejo além do Outro. A constituição do sujeito é um ato, uma posição ativa. Temos que considerar o sujeito neurótico não como quem responde a demanda do Outro com sua fantasia, mas sim pela invenção neurótica do Outro que demanda algo dele.

É neste mesmo Seminário que Lacan formaliza o operador lógico do objeto para coincidir com a função fálica. A partir de agora, pode-se considerar que a outra parte do gozo renunciado é uma perda que não assa pela linguagem. Este não é passível de simbolização e não passa pela significação fálica. Um furo entre o real e o imaginário. Mas isso não significa que não é experienciado. Pelo contrário, o que retorna fora da linguagem é a própria angústia. Assim como vimos que, quando o gozo fálico se desloca entre o simbólico e o real, gera-se um sintoma. Vejamos isso esquematizado no nó borromeano:

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Entre o Simbólico e o Real: o gozo fálico, que gera sintoma.
Entre o Real e o Imaginário: o gozo Outro, que gera angústia.
(Simbólico e Imaginário formam o par significante-significado, ou seja, o sentido)

O objeto a, localizado na junção dos três registros, não é uma moeda intercambiável. Ele será fixadamente um excedente, um mais-de-gozar.

Já o gozo não pode ser compreendido como um vilão que responde as questões angustiantes que o sujeito incessantemente trespassa. Também não é só um ganho secundário do sintoma. O nasce exatamente pela impossibilidade que a psicanálise tem de definir exatamente o gozo. É um real incognoscível, impossível de ser representado mas que não cessa de aparecer nos atos dos analisantes. Ele não é uma experiência nem de satisfação, nem de insatisfação. É uma experiência vivida, essencialmente inconsciente em seu objetivo. 

O sujeito neurótico não é impreterivelmente passível frente ao sofrimento castrador da metáfora paterna. Existe a possibilidade de mudança de posição e essa é um dos fascínios de uma clínica que vai além da rocha da castração. O sujeito, mesmo não querendo bancar sua castração, pode se implicar em um ato de separação do lugar de objeto do desejo do Outro. 

Além de se responsabilizar pela castração, pelas suas escolhas, é preciso se encarregar de sua modalidade de gozo, seja ela inteiramente subordinada a função fálica (masculina) ou um gozo Outro (feminina). Essa última, como vista nas fórmulas da sexuação (Seminário XX), resiste a entrar inteiramente na linguagem, sendo um gozo que está fora do semblante fálico que a posição masculina constantemente reafirma. 

O final da análise na segunda clínica passa por uma produção de uma letra irredutível, um nome próprio, um sinthoma singular que concede com o gozo que escapa a possibilidade de simbolização. No desenlaçe entre analista e analisando, o sujeito consegue se apropriar das suas formas de gozo e se apossar de seu sinthoma como algo produtivo.

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