Introdução ao Real, Simbólico e Imaginário

Não sei quem me escuta, mas tentarei falar para qualquer um. Penso que o importante é ter o que transmitirei reverberando no sujeito do inconsciente daquele que lê. Não tratarei desses conceitos com a pretensão de que sejam entendidos, me darei por satisfeito se forem apreendidos e se criarem uma falta suficientemente grande para irmos atrás de mais. Também não tenho tempo (francamente, nem paciência) para começar do zero. A psicanálise é um trem em constante movimento que todos pegamos com ele andando. Então, se não entender de primeira, não se desespere. Todos começamos iguais, nos sentindo analfabetos funcionais.

Comecemos pelo nome. Falo aqui do psicanalista francês Jacques Marie Émile Lacan. Agora que já foram apresentados, me referirei a ele apenas por Lacan.

Contemporâneo a Freud, Lacan nasceu em 1901 e morreu oitenta anos mais tarde em 1981. Ele ganhou sua fama por ter tirado nosso trem metafórico dos trilhos postos pelos pós-freudianos e suas clínicas pautadas no fortalecimento do ego. Seu desejo era retomar o caminho traçado pelo próprio pai da psicanálise e ir além dele. 

Por motivos didáticos, podemos dividir o percurso de Lacan na psicanálise em três: sua entrada com a tese de doutorado de 1937, até 1948, marcam o período da prevalência da imagem. O segundo momento, entre as décadas de 50 e 60, no qual está majoritariamente retomando os conceitos freudianos deturpados pela instituição que o mesmo criou para regular a formação dos psicanalistas (IPA). Munido de conceitos que Freud não possuía a sua disposição para transmitir sua criação, como a linguística de Saussure e a antropologia estrutural de Lévi-Strauss, Lacan se autorizará a fazer um “retorno à Freud” para dar a descoberta do sujeito inconsciente seu devido destaque em análise. 

Em um terceiro momento, da década de 60 até os últimos dias de sua vida, Lacan estará muito mais absolvido em criar sua própria clínica. Foi em 1973 que Lacan definitivamente deixa de dar a primazia para o significante e a linguagem e passa a trabalhar com o sistema RSI. Falamos aqui de um divisor de águas entre a primeira clínica, do simbólico, para a segunda clínica, dos nós borromeanos, ou clínica do real. Cito primeiro o momento de cisão entre as duas para termos em mente que existe uma diferenciação. Mas o real, simbólico e imaginário são, no ensino de Lacan, categorias constantes e antigas, que ele nunca deixou de usar. São usadas desde o início, porém não são pensadas da mesma forma nas duas clínicas.

Como base ao meu retorno à primeira clínica, decidi pegar dois momentos próximos temporalmente, mas bons exemplos de conceitos que evoluem rapidamente. O primeiro é o texto “O simbólico, o imaginário e o real”, publicado definitivamente no pequeno livro “Os nomes do pai”, datado de sua apresentação em 1953. O segundo será o texto dos Escritos, “de uma questão preliminar a todo o tratamento possível da psicose”, escrito entre 1957-58. Quatro anos de diferença, muitas mudanças.

Vejamos primeiro como são apresentados os conceitos de S.I.R. em 1953:

Lacan já começa sua apresentação chamando os três registros de “essenciais da realidade humana” e que “há na análise toda uma parte de real em nossos sujeitos que nos escapa”. Tenho minhas dúvidas se ele já sabia o quão crucial seria essa última colocação em sua futura clínica…

O resto do texto deixa claro que Lacan ainda estava às voltas com definir propriamente o que seria da ordem do imaginário e o que constituiria o simbólico. Podemos percebê-lo focado em caracterizar a função da simbolização para o sujeito. Mas mal usamos tal conceito após o início do segundo seminário. No primeiro ainda o vemos problematizando o domínio do simbólico, mas logo deixamos de lado a simbolização, que conceitualmente é definida como aquilo que fora deixado de lado e deve ser integrado na cadeia verbal de constituição da história do sujeito. Bobagem. Lacan até chega usar o termo “foraclusão”, que veremos como traço fundamental e irremediável das psicoses no seminário III. 

Fora isso, Lacan relaciona o imaginário com a possibilidade de satisfação das necessidades biológicas e o simbólico como um segmento deslocado que assume um valor socializado, como uma referência ao grupo para certo comportamento coletivo.

Quase sentimos o gosto do raciocínio lacaniano chegando próximo aos conceitos de demanda imaginária e Lei simbólica que rege a sociedade. Mas teremos de esperar até o terceiro seminário para a formalização destes na constituição do sujeito. 

Nada temos do registro do real propriamente delimitado, apenas enormes passagens sobre a “realização” do simbólico, que não nos é útil no momento. Então passemos para o texto “De uma questão preliminar…”

É neste texto que estão dialogados os três principais esquemas de seu ensino: o esquema L, o esquema R e o esquema I. Apresentarei, resumidamente, os dois primeiros para vermos a evolução conceitual de SIR para RSI. 

No esquema L, Lacan representa a diferenciação do sujeito do inconsciente em contraposição ao seu eu, relacionando-os ao simbólico e o imaginário, respectivamente. Agora temos o registro do simbólico encompassando o inconsciente, sendo o lugar da linguagem e do Outro. Em contrapartida, o imaginário é tanto o lugar da instância narcísica do eu, como de seu par, outro. Nele encontramos as identificações, a imagem totalitária do corpo e o significado para os significantes simbólicos.

O esquema R possui como base o esquema L, com a agregação do Complexo de Édipo. Sem me estender muito, nele vemos como o entrelaçamento do imaginário e do simbólico cria nossa realidade. Novamente, o real não é muito comentado, além de ser o registro do inominável, do irrepresentável e, portanto, do traumático para o sujeito. 

Um detalhe que não podemos deixar passar batido é a ordem dos registros entre a primeira e segunda clínica. No início deste texto, apresentei as instâncias como RSI. Mas, explicando a primeira clínica, assinalei-as com o S em primeiro, depois o I e, por último, o R. Neste caso, a ordem dos fatores determina a primazia no produto. Na primeira clínica, temos o Simbólico em destaque. Na segunda, teremos o real. O imaginário ganha seu destaque com os pós-freudianos.

Antes de seguir para a segunda clínica, vou resumir o que temos até então:

  • Simbólico: linguagem; função da fala; sistema de trocas regido por leis; categoria mestre; domina e contêm os outros dois, incorporando na cadeia significante; grande Outro.
  • Imaginário: alienação à imagem unificadora do eu; ilusão de completude; significado; pequeno outro.
  • Real: oposto ao simbólico; impossível de ser representado na cadeia; o prévio a simbolização e o resto desta, que sempre sobra

Vamos agora às diferenças:

Primeiro, retiremos o inconsciente do simbólico. Na segunda clínica, a ideia de um inconsciente decifrável seguindo a cadeia até o significante-mestre cai por terra. Vamos de um inconsciente transferencial e decifrável, ou seja, simbólico, para um real e inominável. 

Com a homogeneidade dos registros, precisamos pensar em cada um autônomo entre si. Se é pela via do imaginário que os significantes do simbólico adquirem seus significados, o simbólico deixará de ser fonte das significações com a autonomia do imaginário. A cadeia significante se faz pelo enganchamento entre os dois registros, mas o simbólico sozinho não se define por ela. Em 1973, Lacan se corrige dizendo que “o Outro significante, o S2, não faz cadeia”. Isso significa que a própria definição de inconsciente deve ser repensada. Ele não é mais composto de significantes articulados, mas sim como um conjunto de elementos disjuntos, de significantes-mestre (S1s) não encadeados. Por isso deixa de ser simbólico para algo mais da ordem do real. 

A questão da análise na segunda clínica vai do deciframento para um savoir-faire, um saber-fazer com os espaços de lapso onde o inconsciente se faz mostrar. No seminário XXIII, ele nos diz que “encontrar um sentido implica saber qual é o nó, e emendá-lo bem graças a um artifício”. O que se trabalha então é o saber suportar o real fora de sentido. 

Lacan criou sua segunda clínica em um contexto histórico de revoluções sociais e quebras de paradigmas morais. A revolução de 68 foi uma resposta sintomática a uma organização social vertical e patriarcal. Com a virada do século se aproximando, a suposição de um gozo supremo por parte da função paterna é posta em xeque. Como consequência, o Nome-do-pai, no singular, será repensado como uma pluralidade.

Os nomes do pai apontam para uma indiferenciação nas estruturas clínicas. A falta de um significante norteador implica o sujeito em um desbussolamento do desejo e a criação dos famosos “novos sintomas”. 

A clínica do real, dos nós borromeanos, do RSI, foi feita para adaptar a psicanálise ao século XXI. Cabe a nós, psicanalistas contemporâneos, aprender a usá-la. Deixo-os com esse desafio. 

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