A falência da função paterna e os “novos sintomas”

Muito se discute, nos círculos mais positivistas, sobre a eficácia de uma clínica psicanalítica datada do século passado. Com a pluralidade de tratamentos oferecendo uma “cura” rápida e uma infinitude de psicofármacos milagrosos, a pós-modernidade tende para o rechaçamento de uma análise que parece interminável frente ao sofrimento pulsante e imediatista do sujeito contemporâneo. Cercados por teorias pautadas em um determinismo biológico, tendo como seu carro-chefe as neurociências, os sujeitos encontram uma justificativa – “cientificamente comprovada” – para se isentar de qualquer responsabilidade perante seu desejo. A retificação subjetiva no início do tratamento, usada desde as primeiras histéricas de Freud, encontra cada vez mais resistência graças a uma explicação organicista que eterniza o sintoma como corpo ex-tranho ao semblante de agente incorporado pelo eu imaginário. Frente a essa cronificação do desconhecimento do desejo, o próprio inconsciente é colocado em questão e o discurso psicanalítico ameaçado de extinção. 

A virada do século marca uma mudança econômico-cultural que não está isenta de consequências para a formação do sujeito e suas formas de gozo. O mestre capitalista encontrou no avanço desenfreado do discurso científico uma oportunidade perfeita para impor a hegemonia do neoliberalismo através da globalização imposta pelas novas redes de comunicação virtual. Sobre esse casamento, Lacan comenta que “Não se esperou, para ver isso, que o discurso do mestre tivesse se desenvolvido plenamente para mostrar sua clave no discurso do capitalista, em sua curiosa copulação com a ciência” (Lacan 1969-1970, p.115). Mesmo sendo impossível prever a magnitude da mudança que estaria por vir, Lacan fez uma guinada em seu ensino, a partir da revolução de 68, para preparar a psicanálise para o século XXI. 

Em um contexto histórico de Guerra Fria, a revolução de 1968 na França foi uma resposta sintomática de jovens estudantes à uma sociedade com valores arcaicos e patriarcais. Zizek (2008) comenta como a revolução é a passagem de uma forma de dominação a outra, um começo de uma nova era capitalista na qual a tolerância sexual é lucrativa. Ele nos recorda as palavras de Lacan aos estudantes: “Como revolucionários, vocês são loucos que pedem um novo patrão [mestre]. E o terão”. O Seminário da época, livro XVII, foi pautado em esclarecer os laços sociais, com matemas nos Quatro Discursos, e em esclarecer as consequências da falência do Nome-do-Pai, de acordo com a psicanálise. 

O que está posto em questão com a virada do século é a suposição do gozo supremo por parte da figura paterna. A hierarquia vertical com um pai detentor do saber no topo começa a desmoronar com o avanço da globalização e as novas tecnologias. As formas tradicionais de regulação caem por terra e o sujeito se encontra desnorteado sem uma figura identificatória que o oriente no campo do gozo. Em uma sociedade que o imperativo básico se materializa pelo comando do supereu de “Goze!”, a clínica psicanalítica se vê diante de uma proliferação de novos sintomas em que o ato substitui a palavra. 

Para compreendermos o surgimento das patologias ditas contemporâneas, precisamos fazer uma revisão epistemológica dos conceitos propostos por Lacan para sua segunda clínica. Comecemos pela função paterna e a falência do Nome-do-Pai.

“A função do pai tem seu lugar, um lugar bastante grande, na história da análise. Está no centro da questão do Édipo, e é aí que vocês veem a presentificada” (Lacan, 1957-1958, p. 166). Se Freud coloca a função paterna no centro de sua teoria edipiana, Lacan não deixa-a passar sem suas próprias considerações. Para o último, o pai não é, necessariamente, um pai corpóreo; o Nome-do-Pai é isso, um nome. Falamos aqui de um pai simbólico, o representante metafórico da Lei e impositor da proibição do incesto. A metáfora paterna insere o sujeito no registro da linguagem, sendo o  significante que desmistifica o desejo do Outro. Ele está diretamente relacionado ao significante fálico, que norteia a cadeia simbólica e é o significante último da falta irredutível, causa do desejo. Sua função radical é a de dar nome às coisas, até mesmo ao gozo. 

Se na primeira tínhamos o Nome-do-Pai para a diferenciação clínica estrutural, na segunda este referencial cai por terra. A falência da metáfora paterna, a deterioração da imago do pai, deixa uma hiância que coloca em risco as constituições neuróticas. Estruturas não se sustentam mais na presença ou ausência do Nome-do-Pai. No seminário XXI, Lacan passa dessa garantia para o sem-consistência do plural: nomes do pai. Temos não só um, mas infinitas formas de inserir o sujeito na Lei da linguagem e orientar seu sintoma. Sem um representante para se apoiar, a própria Lei social passa a ser tratada com desconfiança e rejeitada como um semblante meramente sugestivo. Antes éramos norteados por sólidos códigos morais, herdados geracionalmente e reforçados por líderes políticos e religiosos. 

Uma das principais consequências percebidas na clínica do desbussolamento do sujeito sem um significante-mestre normatizante é a falha da inserção no simbólico. Esta ausência deve ser pensada não como um termo negativo de um significante foracluído, senão todos seriam psicóticos. Mas sim como um lapso no próprio registro do simbólico, uma lacuna no nó que precisa de uma suplência. 

Com a falência da função paterna, podemos pensar os novos sintomas como um subproduto desse desnorteamento na constituição do sujeito. As toxicomanias, os transtornos alimentares, as crises de ansiedade, ataques de pânico, etc, parecem ser uma saída sintomática muito mais da ordem do real do que propriamente simbólica. Sem artifícios para nomear o sofrimento, o sujeito pós-moderno acha saídas no ato, incapaz de simbolizar tanto o sintoma, quanto o desejo. 

Precisamos ter em mente o mito freudiano que deu origem ao Nome-do-Pai: Totem e tabu. Nele vemos como o pai só é posto como metáfora paterna a partir da traição dos filhos e seu assassinato. Quem detém e mantém o tabu do incesto não é o pai vivo, e sim o pai morto. Ele será sempre um lugar vazio que encarna a lei/proibição simbólica. Para Lacan, este é o pai real, já que ex-siste à lei dos significantes, criando o conjunto. O pai real como agente da castração fornece a distância necessária entre o Outro e o gozo, sendo apenas encontrados juntos no delírio paranóico, quando o Outro goza do sofrimento do sujeito. É deste pai, do pai real e morto, que falamos quando se discute a falência da função paterna. Ele é o pai do “Não!” incondicional, é o “não porque eu disse que não”. Na ausência desta proibição, novas formas de ligação entre a ordem simbólica e o gozo precisam tomar seu lugar. 

Outra consequência do lapso no simbólico pelo declínio paterno se encontra na crença de um Outro, sendo que este pertence e rege na ordem das ficções simbólicas. “O Grande Outro não existe”, nos alerta Miller (2013). Sua existência é baseada em uma crença, em uma confiança simbólica e garantia de segurança ao abdicar de pulsões primitivas e agressivas. Em uma sociedade onde a ficção simbólica não mais se sustenta, o simulacro do imaginário prevalece. Apoiamo-nos cada vez mais em um narcisismo e ilusão de completude pelo eu, apostando no falso aspecto das identificações imaginárias e nos limitando a suprir nossas demandas infinitas com bens materiais descartáveis. 

Zizek (2009) aponta para o resultado paradoxal deste colapso da eficácia simbólica, destacando a reemergência da faceta real do Outro. Sendo esta a definição de paranóia, o sujeito contemporâneo cria respostas ideológicas para lidar com a inexistência do Outro. Por um lado, o distanciamento cínico isola-o de toda e qualquer crença pública, colocando-se à par das decisões políticas. Por outro, a fantasia paranóica inventa novas formas de explicar o sofrimento através de teorias conspiratórias em que o Outro goza excessivamente. As duas se empenham em criar um “Outro do Outro”, um agente invisível e secreto que puxa os cordões por trás das cortinas do poder público. 

A adesão a simulacros imaginários induz o sujeito, cada vez mais, a investir em espetáculos patrocinados pela sociedade pós-moderna que nos bombardeiam através de telas. Investimos em perfis virtuais e alimentamos nossas imagens com fotos editadas, tentando agradar a demanda de um Outro que fazemos existir. Nossa sociedade pós-moralista, sem acordos simbólicos concretos, o gozar torna-se uma obrigação moral. A proliferação de patologias em que o ato substitui a palavra requer uma clínica das impulsões. Resta-nos analisar como os novos sintomas são um produto direto disso.

Do que falamos quando dizemos “sintoma”? A definição do primeiro Lacan nos diz que sintomas são uma formação do inconsciente, que possuem estrutura de linguagem, assim como os chistes, os atos-falhos, os sonhos, etc. Isso aponta para uma decifração à posteriori. Classicamente, o sujeito chega com uma demanda de cura, esperando do psicanalista uma resposta para se livrar de algo insuportável. 

Na clínica contemporânea, o que chega é a problematização da própria demanda. O sujeito confronta o analista com sua busca imediata pela satisfação, tentando burlar a passagem da demanda pelo Outro e indo direto ao corpo. O gozo busca uma forma de autoerotismo que não seja parte do simbólico.O que se quer é uma forma mais direta de se encontrar o objeto, sem passar pelos obstáculos impostos pelo desejo do Outro. 

Impossível não mencionar o papel do discurso capitalista no alastramento desses novos sintomas. O neoliberalismo convida o sujeito a negar a castração, propondo objetos artificiais para preencher a função de objeto a, de objeto causa do desejo. Somos seduzidos por artefatos tecnológicos para tamponar a falta primordial e, como consequência, ofuscamos o nosso próprio desejo incitando um gozo genérico. 

Os novos sintomas transparecem nas patologias de nossa época. Ao invés de definições clássicas de estruturas, nos deparamos no consultório com sujeitos pré-diagnosticados como bulímicos, anoréxicos, toxicômanos, hiperativos, ansiosos, depressivos, etc. Isso impõe uma dificuldade a mais na definição estrutural, tornando impossível a classificação nas entrevistas preliminares. Não temos mais neuróticos, psicóticos e perversos puros. Nosso objetivo inicial deixa de ser classificatório para um ato de corte no excesso de gozo que o sujeito traz como urgência subjetiva. 

O que une os “novos sintomas” em uma classificação é exatamente o fato de não serem feitos através da linguagem, ou seja, de não serem classicamente sintomas. Quando pensamos em um ato substituindo a letra, colocamos esses sintomas mais próximos ao acting out, a passagem ao ato e a inibição, como apontado por Lacan no seminário X. Vejamos por quê.

O acting out se mostra quando o sujeito sai de um impasse simbólico através de um ato impulsivo, como uma forma desesperada para mostrar algo ao Outro. O objeto a deixa seu posto de objeto causa do desejo e sobe à cena sob a forma de uma exibição de gozo. Lacan, comparando o acting out ao sintoma, nos diz: 

O sintoma não é como o acting out, que pede interpretação, pois (…) o que a analise descobre no sintoma é que ele ñåo é um apelo ao Outro, não é aquilo que mostra ao Outro. O sintoma, por natureza, é gozo, não se esqueçam disso, gozo encoberto, sem dúvida (…), não precisa de vocês como o acting out, ele se basta. (LACAN, 1962-63, p. 140)

Se temos sintomas escancarando o gozo, eles deixam a classificação de sintoma. No sintoma, o gozo é encoberto, está por trás das cortinas. No acting out, o gozo está no centro do palco, pedindo uma interpretação e se esforçando para restituir um lugar na cena do Outro. 

Já na passagem ao ato, o sujeito sai de cena. Ele não vê onde se encaixa, então assume a posição de resto. A dimensão da demanda é abolida e não há apelo em direção a um Outro, apenas um ato de recusa. Ele é o oposto do acting out, um outro extremo de gozo que exclui a definição de sintoma. 

Diferentemente dos outros dois, a inibição não envolve a execução de um ato, mas sua ausência. Seu objetivo é evitar qualquer conflito com o Outro, restringindo as funções do eu. Aqui caberia a definição de depressão, na qual o sujeito renuncia o desejo e os conflitos que poderiam surgir se o perseguisse. Ele exclui a definição de sintoma, pois o sintoma supõe que já existe um conflito instalado. 

Mas comparamos até aqui os “novos sintomas” com a definição clássica de sintoma, de um Lacan na primeira clínica. Com a seguinte passagem de Tarrab (2005), podemos pensar esses novos sintomas a partir da definição de sinthoma

…a toxicomania, a bulimia, a anorexia, os ataques de pânico e tudo o mais que colocarmos nesse saco estão muito próximos do que Lacan chama a operação selvagem do sintoma, e vão na contramão da vertente simbólica do sintoma como mensagem. É o sintoma que não pede nada, que é fixação de gozo. (TARRAB, 2005, p.3)

Com a nova formulação de sinthoma, com H, Lacan implica que o sintoma é uma forma de gozo ao invés de uma metáfora decifrável, como pensado na primeira clínica. Isso explica melhor sua impermeabilidade à mudança e o nível subjetivo em que cada um lida com a falta do Outro. 

O conceito de sinthoma surge no ensino de Lacan junto com a proposição plural de nomes do pai. Entendo esses novos sinthomas como uma forma desesperada de atar os três registros do real, simbólico e imaginário de forma borromeana. O sujeito tenta se fazer existir através do nome dessas novas patologias, 

A função do analista agora é muito mais da ordem do real, fazendo um corte no funcionamento desses sinthomas para que, aquilo que se realiza como um gozo opaco e fora do sentido, tente se apoiar nos poucos fiapos do gozo-sentido que resta ao sujeito. Nosso problema atual, da clínica do real, é “como conceber a psicanálise prescindindo do Pai como operador da castração de gozo” (Tarrab, 2005). Seria, então, nossa função alterar o funcionamento real do sinthoma para algo do lado do Pai simbólico? Como cifrar esse gozo, esse jouissance, em um j’ouis sens

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LACAN, J. (1962-63) O Seminário, Livro 10: A angústia.

_______    (1969-70) O Seminário, Livro 17: O avesso da psicanálise.

Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1992. 

_______ (1955-56) O Seminário, livro 3: As Psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. 

_______ (1963) O Seminário Os Nomes do Pai. Tradução não publicada. 

_______ (1974-75) O Seminário, livro 22: R. S. I. Tradução não publicada. 

_______ (1975-1976). O Seminário, livro 23: O Sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar (2007)

_______ (1966). Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

Lustoza, R., Cardoso, M., Calazans, R. (2014). “Novos sintomas” e declínio da função paterna: Um exame crítico da questão. Ágora, 17(2), 201-213. 

MILLER, J. A. (2007) La angustia lacaniana. Buenos Aires: Paidós.

___________. & LAURENT, E. (2005) El Otro que no existe y sus comités de ética.

Buenos Aires: Paidós.

TARRAB, M. (2006) Produzir novos sintomas. Asephallus (Rio de Janeiro),

ano 1, n.2, p.1-5, maio/out.

ZIZEK, S. (2009) O grande Outro não existe. Artigo publicado no European Journal of Psychoanalysis, 5, Spring-Fall 1997, páginação html: << http://www.psychomedia.it/jep/number5/zizek.htm >>.

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