Os discursos lacanianos e a pós-modernidade

Os quatro discursos

É preciso ressaltar o início da matematização lacaniana com uma definição sucinta do que significa o sujeito para o significante: 

Nossa definição do significante (não existe outra) é: um significante é o que representa o sujeito para outro significante. Esse significante, portanto, será aquele para o qual todos os outros significantes representam o sujeito: ou seja, na falta desse significante, todos os demais não representariam nada. [Lacan (1960/1998, p. 833)]

Um salto se faz necessário entre a definição de significante e o constructo teórico do laço social na forma de matemas. O termo matema foi criado por Jacques Lacan, em 1971, para designar uma escrita algébrica capaz de expor cientificamente os conceitos da psicanálise, e que permite transmiti-los em termos estruturais, como se tratasse da própria linguagem da psicose (ROUDINESCO; 1998, p. 516). Ao formalizar conceitos psicanalíticos através de expressões algébricas, Lacan se dispôs a transmitir seus ensinamentos de forma simbólica mas que tentasse abranger um pedaço do não-dito real.

As fórmulas tentam ser puros significantes, sem uma significação imaginária pré-concebida. Os discursos veiculam maneiras como uma posição subjetiva se exerce e todos eles são compostos pelos matemas do  Significante-Mestre (S1), da cadeia significante/o saber (S2), do gozo (a) e do sujeito barrado/sujeito do inconsciente (S/). 

Para entrar propriamente nos quatro discursos propostos por Lacan em seu 17º Seminário, podemos nos valer de sua formalização da cadeia significante e do lugar que o sujeito ocupa referente à ela (Imagem 1). Ao ser “matematizada”, a cadeia significante ilustra que o sujeito se forma a partir da relação entre o S1 e o S2, sendo que este origina o próprio S1 e se relaciona com o S2 que virá em seguida, tendo sua existência de forma retroativa à cadeia. 

(Imagem 1. O sujeito na cadeia significante)

Já os quatro discursos são formulados de tal maneira que os quatro possuem os mesmos elementos, alternando por um-quarto de giro todas as posições para que se tornem um outro discurso. É importante ressaltar que a estrutura de um discurso se mantém a mesma, independente de qual se tratar, tendo sempre um agente (ou semblante), um outro, uma verdade e uma produção (Imagem 2). 

(Imagem 2. A estrutura de um discurso)

Os quatro discursos postos por Lacan foram o do mestre (agente: S1), da universidade (agente: S2), o do analista (agente: a) e o da histérica (agente: S/). Cada um deles é uma resposta neurótica diferente para um mesmo problema: a não-relação sexual. A evitação neurótica com esse descontentamento é por meio dos discursos, seja reivindicando (Mestre), explicando (Universidade) ou reclamando (Histérica). Por hora, apresentarei os quatro discursos (Imagem 3), mas apenas me deterei em explorar o discurso do Mestre para assim chegar às duas novas subversões que o neoliberalismo possibilitou. 

(Imagem 3. Os quatro discursos)

Partindo do matema da cadeia dos significantes (Imagem 1), podemos acompanhar Lacan em sua introdução do discurso do mestre, utilizando-se da parábola hegeliana do mestre e do escravo para ilustrar tanto a relação de dominação, como a influência do inconsciente no lugar de verdade do sujeito. Mas um quarto elemento se fez necessário para a formação do discurso, algo que não pode ser explicado por associação livre, um excesso que se expressa no corpo. O objeto a é apresentado no texto “Remarque sur le rapport de Daniel Lagache” como fundamental na estrutura do desejo e ganha seu estatuto central em seu ensino no Seminário X. A partir deste, ele será conhecido como “objeto causa de desejo”, “objeto que está por trás do desejo” e, portanto, inassimilável como um objeto concreto.

No discurso do mestre (Imagem 4), o objeto a entra no lugar da produção como o excedente gerado pela atividade do escravo, sendo apropriado pelo mestre e resultando em um mais-gozar (FINK, 2014). Aqui o sujeito barrado se encontra no lugar da verdade. Por mais que negue sua falta, passando-se por um semblante de S1, o mestre também é um sujeito dividido e, portanto, regido pelo inconsciente. 

(Imagem 4. O discurso do mestre)

Dado que o inconsciente simbólico funciona na mesma lógica que o discurso do mestre, podemos usar a tão explorada formação do inconsciente através do chiste. Dedicando grande parte do Seminário V para destrinchar o funcionamento do chiste, Lacan demonstra a aplicabilidade da linguística estrutural no que concerne às expressões do inconsciente. Neste mesmo caminho, podemos ler o discurso do mestre como um chiste que, ao mesmo tempo que contém uma verdade sobre o sujeito barrado, ele produz um excesso que se expressa através da risada. 

O frustrante é que algo sempre será impossível entre dois sujeitos. A impotência é representada pelas duas flechas que se cruzam entre os discursos, impedindo que a produção encontre a verdade. A não-relação é o que alimenta a demanda neurótica, é o que nos leva a reclamar. 

A novidade introduzida em Milão, 1972, foi que Lacan traçou uma subversão do discurso do mestre. Tínhamos um mestre antigo que comandava a repressão e passamos para um novo, que comanda o gozo.

 

As duas subversões dos discursos

O discurso do capitalista nega a impossibilidade, mas não consegue afirmar, da relação sexual. Enquanto o discurso do mestre é uma saída neurótica pelo recalcamento do sujeito barrado, o discurso do capitalista é perverso no sentido de negar a não-relação sexual. 


(Imagem 5. O discurso do capitalista)

Este “novo discurso” na realidade não passa de uma subversão feita a partir do discurso do mestre, então não se trata de um quinto propriamente dito. Com essa subversão, o que entrou em jogo foi uma “copulação” do discurso do mestre com as ciências. Essas, produtoras de artefatos para o consumo em massa, foram submetidas pelo discurso do mestre para enviar ao mercado produtos prêt-à-porter que alcançassem rapidamente sua obsolescência. Esses objetos, ou latusas no vocabulário lacaniano, deveriam fazer semblantes análogos ao do objeto causa de desejo, objeto a. Portanto, essa guinada para um novo mestre aboliu a impossibilidade do encontro do sujeito com o objeto a, ele se organiza numa circularidade completa. “Uma pequenininha inversão simplesmente entre o S1 e o $… que é o sujeito… basta para que isso ande como sobre rodinhas, não poderia andar melhor, mas, justamente, anda rápido demais, se consome [consomme], se consome tão bem que se consuma [consume]” (LACAN, 1972). 

O que o discurso capitalista coloca em evidência é o individualismo da modernidade. Enquanto, no discurso histérico, o sujeito do inconsciente também está em lugar de agente, o discurso capitalista se diferencia por não se dirigir a nenhum outro em busca de respostas, aparecendo dissociado ao saber. O que importa agora é a produção de mercadorias, em função de sua mais-valia, para que os sujeitos entrem em um curto-circuito do mais-de-gozar. 

Ao ser direcionado ao significante-mestre, uma reclamação subjetiva visa a verdade, como se fosse possível uma resposta única para o sujeito voltar a ser completo. Através de uma exploração do desejo, o discurso capitalista coloca um produto como resposta à queixa existencial do sujeito barrado. Temos aqui uma fetichização do S1, como se um significante mercantilizado pudesse cessar a angústia. Assim, tudo o que diz respeito às interações humanas torna-se um mercado. 

Na mesma palestra que deu em Milão, Lacan nos dá uma indicação de um sexto discurso, “um discurso que seria enfim verdadeiramente pestilento, totalmente dedicado ao serviço do discurso do capitalista” (LACAN, 1972). Sem se prolongar, ele hipotetiza que “isso talvez um dia possa servir para alguma coisa, se, é claro, todo o negócio [do capitalismo] não desmoronar totalmente, antes disso”. Visto que, desde 1972, o capitalismo não só não desmoronou como se transfigurou em detrimento do neoliberalismo, é preciso explorar formas que esse sexto discurso possa ter tomado na pós-modernidade. 

Para finalizar, gostaria de apresentar duas respostas a essa provocação de Lacan em Milão de um discurso que complementasse o discurso do capitalista em sua dimensão de dominação. O primeiro foi desenvolvido por Néstor A. Braunstein, que teorizou a possibilidade de um discurso dos mercados (Imagem 6) e que foi a inspiração para o título da pesquisa.


(Imagem 6. O discurso dos mercados)

Como podemos ver, o agente neste discurso dos mercados é o próprio gozo, o próprio mercado como um semblante onipresente ocupa o agente e comanda o fluxo de capital. Em uma sociedade onde o imperativo do supereu é “Goze!”, temos para acompanhar um agente dos discursos comandado pelo saber produzido pela ciência e que impera no sujeito do inconsciente como outro. O saber agora está incorporado no objeto, criando assim uma nova tirania do saber, que colocamos nos gadgets. Junto com a revolução tecnológica do século XXI, passamos a colocar fé nesses aparelhos digitais que dariam uma resposta ao nosso desejo.

Deixamos a ciência, como uma ideologia, se ostentar como verdade e governar o real. Ela se tornou uma “empresa”, nos diz o autor, pautada em uma ideologia da foraclusão do sujeito. Nossos sujeitos do inconsciente são os destinatários desse servomecanismo. A falência do Nome-do-Pai mostra suas consequências com esses produtos passageiros que ancoram o sujeito no mundo por um tempo limitado. A internet entra nesse jogo como um agente, ou semblante, que oferece significantes mestres para que o sujeito se identifique. 

A fórmula do discurso dos mercados é uma já conhecida: a do analista. Ambos o mercado e o psicanalista funcionam por uma lógica dessubjetivante, tanto um quanto o outro não se colocam em jogo, sem colocar suas determinações e desejos pessoais. Tanto um quanto o outro histericizam o outro, fazendo o analisando e o consumidor produzirem, mas com objetivos diferentes. Diferentemente do analista, o servomecanismo do produto científico se propõe a realizar a fantasia do indivíduo. Mas, ao mesmo tempo, está destinado a decepcionar na negação da falta primordial do sujeito. 

Me deparei com uma segunda resposta à provocação de Lacan no percurso deste Projeto. Ela foi desenvolvida por Aurélio Souza em seu mestrado e carrega o nome de discurso do a-viciado (Imagem 7).


(Imagem 7. O discurso do a-viciado)

Diferentemente dos outros discursos, que são dispositivos quadripartites que se organizam em torno da função paterna e pelas vias do desejo, esse discurso não visa domesticar o suposto gozo do Outro ou dar origem a um sujeito.  Assim como o discurso do mercado, aqui o objeto a está em um lugar de dominância. Mas, diferentemente daquele, o discurso do a-viciado exacerba a impossibilidade do sujeito de ter acesso ao significante-mestre (S1), que tem sua autoridade implicada na função paterna e que viria representar o sujeito. “Isso quer dizer que o a-viciado fica excluído de ter acesso às insígnias que lhes seriam transmitidas pelo Pai” (SOUZA, 2008).

O interessante nesta elaboração de Souza é que acentua a falência da função paterna na qual vivemos na pós-modernidade. Inabilitados de ter acesso a um significante que norteia a subjetivação, jovens se veem à mercê de um determinado campo de gozo “onde o objeto adquire uma autonomia, construindo um dispositivo que capture e destitui o sujeito de sua subjetividade” (SOUZA, 2008). Quando pensamos nos fenômenos sociais em que os analisandos estão inseridos, percebe-se uma relação de dependência com o sintoma. Criou-se um laço social que desconsidera o desejo, ultrapassa a estrutura do fantasma/fantasia e destitui o sujeito. Traços identificatórios são anulados e ideais deslocados. O objeto a não só adquire uma substancialidade real, como também um domínio diante do qual o sujeito nada consegue fazer senão se render.

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