O CISTO NEOLIBERAL

O neoliberalismo não é um novo liberalismo

Quando usamos o prefixo “neo”, geralmente nos referimos a algo que indica o novo, com etimologia do grego néos. Mas, no caso do neoliberalismo, prefiro a definição de “neo” como um substantivo masculino que se refere a forma abreviada de neoplasia, um processo patológico que dá origem a um neoplasma, um tumor que pode ser benigno ou maligno. Assim como um câncer, o neoliberalismo germinou nos anos 70, de uma economia liberal em um momento de desregulamentação do sistema monetário internacional. Com o dólar desvalorizado e o ritmo de crescimento dos países industrializados brecados, a escola de econômicos como Friedman e Becker, com promessas de liberdade e fim de crises econômicas, ganha espaço para se alastrar no solo (in)fértil do pós-guerra. 

A princípio, o plano é simples: precisamos de menos Estado e mais Mercado. As taxas implementadas estavam atrapalhando o crescimento econômico e o modelo industrial precisava ser repensado. Supervisionar e controlar se o trabalho está sendo executado propriamente é custoso, a singularização das funções é desgastante e o modelo taylorista precisava de um toque de humanidade. Portanto, uma psicologização das relações de trabalho se fez necessário para que o próprio trabalhador se visse como uma engrenagem necessária e com um valor para a máquina capitalista. Nas palavras de Margaret Thatcher (1981), “Economias são o método: o objeto é mudar a alma”. Para que tal mudança se tornasse possível, foi preciso de intensas sessões de intervenção e reeducação no nível celular dos indivíduos, até que estes começassem a se entenderem como “empreendedores de si”. A ideologia neoliberal precisava ser internalizada como a única racionalidade possível. 

O rumo da metástase neoliberal foi fazer do mercado o principal regulador do Estado, se espalhar o suficiente pelo organismo para se fazer a forma em que a instituição estatal deverá se inscrever. O mercado deve ser o objetivo, o princípio e a forma. Diferentemente do plano inicial, o neoliberalismo requereu um Estado muito mais ativo do que no liberalismo. “Na verdade, o que o neoliberalismo pregava eram intervenções diretas na configuração dos conflitos sociais e na estrutura psíquica dos indivíduos. Mais do que um modelo econômico, o neoliberalismo era uma engenharia social.” (SAFATLE, 2021). A diferença sendo que o Estado agora defende os interesses do mercado, a qualquer custo. 

De fato, são intervenções diretas aos conflitos sociais, no modo que o indivíduo interage com a sociedade e como se vê dentro dela. Mais que um modelo econômico, é uma engenharia gregária que introjeta o mercado na psique e continua a se espalhar, é passar do social ao psíquico e reformar o reflexo imaginário do sujeito para se tornar otimizadores de mercados. A pregação chega a ser simplória: você é um empreendedor de si mesmo. Não é necessário um Estado para te dizer o que fazer, onde pertencer ou o que ser. É a “formalização da sociedade com base no modelo da empresa” (Foucault, 2010). 

Um dia proletariado, uma força de trabalho à venda, agora um empresário com um capital de competências a gerenciar conforme uma lógica de maximização do resultado de seus investimentos. O indivíduo é como uma empresa, quanto mais coloca, mais (teoricamente) ganha. 

O que o liberalismo prometia era uma garantia que os indivíduos seriam incitados a perseguir seus interesses, a produzir riquezas úteis para si e para os outros, e, por meio delas, produzir felicidade. A clássica ideia capitalista de um por todos e todos por um, trabalhamos para ganhar e todos ganharão com o nosso trabalho. O Estado estava lá para garantir instrumentos controladores de produção do bem-estar da população, regulamentar riquezas e servir como um grande Outro para direcionar a sociedade. Era um governo utilitarista, ele media as consequências e probabilidades para um bem comum. 

Como toda a boa anomalia, o neoliberalismo não veio para atrofiar algo do governo. Ao contrário, ela indica, ela constitui o indexador geral sob o qual se deve colocar a regra que definirá todas as ações governamentais (Foucault, 2004). E, como o contágio começou com o dólar, não é de se surpreender que o neoplasma com mais originalidade é o estado-unidense. 

Chamado “anarcocapitalismo” por Foucault, os Estados Unidos cria uma política social privatizada, onde o objetivo é o ótimo crescimento do mercado de modo a engendrar o máximo crescimento, que será a única política social verdadeira possível nesse novo regime. É preciso instalar um ambiente concorrencial onde os indivíduos empreendedores devem se adaptar. 

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