Uma biografia de jacques lacan

Cronologia de Jacques Lacan


1901 – Em 13 de abril nasce Jacques-Marie-Émile Lacan em Paris, de uma família com tradição católica (o que reverberará em seu ensino) e relativamente abastada. Estamos no período da Belle Époque. Um de seus irmãos mais novo chega a entrar para a ordem dos beneditinos como o nome de Marc-François.

1919 – Matricula-se na faculdade de medicina e, paralelamente, estuda literatura e filosofia. Teve um contato direto com os surrealistas, sendo ouvinte de uma das primeiras leituras de Ulysses de Joyce.

1927 – Em sua formação, trabalha no renomado hospital psiquiátrico de Sainte-Anne, onde os casos mais graves de psicoses acabam por apodrecer. Um ano depois, trabalha no Serviço de Enfermaria Especial, dirigido por Clérambault. Mais tarde, reconhecerá-o como seu único mestre na psiquiatria. Foi através dele que deu respeito às apresentações de paciente e aprendeu sobre o automatismo mental. Assim começou a estudar os distúrbios de linguagem.

1931 – Durante seu tempo em Sainte-Anne, Lacan teve a oportunidade de examinar Marguerite Pantaine, uma paciente internada pela tentativa de homicídio de uma famosa atriz francesa, Huguette Dufflos. Antes desse incidente, Aimée já demonstrava traços de paranoia. Como uma escritora aspirante, ela tentava publicar seus trabalhos, mas a sua frustração começa seus delírios de perseguição e erotomania. Desses breves encontros, Lacan redigiu o “Caso Aimée” e obteve o doutorado com a tese Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade (1932).

Esse é um caso emblemático para Lacan e o início de seus estudos sobre as psicoses. Dele se aproximou de Freud e criou um dos únicos doutorados em psiquiatria considerados relevantes. Ele explica e critica a perspetiva da psiquiatria clássica sobre a paranoia. A preocupação nunca era com o paciente em si, mas com a doença que o acometia, portanto, o que importava era a quantidade de doentes que se conseguia. Esses eram apenas receptáculos de patologias para estudo, um corpo sem sujeito. Com exames demorados, de 1 hora ou mais, ignoravam estritamente o aspecto pessoal, as pequenas anedotas, os fatos pessoais do paciente. O foco era no objetivo, mensurável, verificável. Era uma medicina quantitativa com o foco na sintomatologia, nada se tinha de pessoal ou subjetivo.

Lacan se opôs a essa generalização do sofrimento psíquico, queria mostrar a importância da análise de um caso aprofundado. Com isso apresentou a singularidade do sujeito, como nenhum era igual e como não deveriam manter-se fixados em um quadro clínico previamente definido. É preciso escutar o sujeito, fazer-se de ignorante e nunca ter certezas; o óbvio para cada um é diferente e precisa ser questionado; todos possuem uma experiência singular.

Se, como ele diz, “o sintoma é o que muitas pessoas têm mais de Real”, precisamos falar desse sintoma e prestar atenção nele. Não para aceitarmos e categorizarmos como uma fatalidade, mas capturá-lo e transformá-lo. Para isso, é preciso sair da posição de sábio e de mestre.



Contexto da Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP)

Primeira instituição psicanalítica francesa, estabelecida em 1926. Já em sua fundação, existia uma cisão entre aqueles que concordavam com as novas normas impostas pela International Psychoanalytical Association (IPA) – fundada por Freud. O grupo que defendia a adesão à ortodoxia da IPA era formado por nomes renomados, como Marie Bonaparte (que asilou o próprio Freud na primeira guerra) e Loewenstein, que se tornou o maior representante da corrente ortodoxa e um dos principais analistas didatas da SPP.

1932 – Foi com esse renomado psicanalista que Lacan teve, entre 1932 e 1938, sua conturbada experiência de análise. Historiadores como Roudinesco e Laurent afirmam que Lacan foi bastante avesso à rigidez do “tratamento padrão” desde o início de sua análise. Mas foi no final que os conflitos entre analisante e analista se intensificaram. Lacan, considerando sua análise terminada, precisava da oficialização de Loewenstein para que pudesse se tornar titular da SPP e exercer a função de analista didata. Mesmo com o analista relutante e com a condição que retomasse sua análise posteriormente – o que nunca fez – Lacan é nomeado analista titular da SPP em 1938.

No meio disso, em 1936, sua comunicação sobre o estádio do espelho, durante congresso da Associação Internacional de Psicanálise (IPA) em Marienbad, é interrompida no meio por Ernest Jones, discípulo e biógrafo de Freud.


SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1939 – 1945) INTERROMPE AS ATIVIDADES DA SPP

1946 – A SPP retoma suas atividades e Lacan, com Sacha Nacht e Daniel Lagache, encarregam-se de análises didáticas e supervisões, desempenhando importante papel teórico e institucional. Com essa nova presidência de Nacht, uma segunda crise se instaura dentro da SPP: a polêmica principal dizia respeito à análise leiga, isto é, à ampliação do exercício da psicanálise aos não médicos.

1949 — Lévi-Strauss “As estruturas elementares de parentesco” – tese de doutorado

● consanguinidade x PARENTESCO (simbólico, linguagem)

  • ○  parentesco é, mais do que uma questão biológica, uma questão simbólica — o complexo de édipo diz respeito a uma relação entre elementos
  • ○  leitura estruturalista da psicanálise freudiana — universalidade do tabu do incesto
  • 1951 — Sua técnica de sessões curtas gera controvérsias na SPP.
  • ●  Enquanto o analisando enuncia seu discurso a partir da associação-livre, o analistaescuta um significante mestre na linguagem, a escolha de palavras do Sujeito, e corta a fala para impactar o analisando. Ele interrompe a cadeia de significantes que o analisando está acostumado a repetir para haver uma bifurcação e um novo caminho possa ser traçado em sua lógica.
  • ●  O obsessivo tenta gastar seu tempo de forma a abarcar todos os assuntos que já préviamente estabeleceu, tenta estender seu tempo ao infinito para tentar compreender o que lhe impede de chegar no momento de concluir. Esse tempo não pode permanecer neste estado, é preciso impor uma conclusão, um corte, e a angústia pela intrusão do real no imaginário. Para a histérica, ela usa seu tempo em função da falta que sabe possuir, esperando do analista uma resposta para sua demanda interminável.

● O tempo lógico de Lacan vem como contrapartida ao cronológico de uma sessão de cinquenta minutos, que até então era o padrão da psicanálise. É esse tempo que tenta alcançar a inscrição temporal do desejo no discurso do analisando, ele dá a forma lógica para a formação dos sintomas, para as suas fantasias. O corte produz um furo no Real e é feito assim que o analista, como sujeito vazio, faz uma escansão do tempo para que o sujeito fique perplexo perante ao que ele mesmo falou. Sua finalidade é de chocar, deixar o sujeito na falta e fazê-lo refletir um conteúdo trazido à tona pelo seu inconsciente.

Com a prática das sessões curtas, Lacan tornou-se então o epicentro dos conflitos institucionais que vinham desde a fundação da SPP. Ele foi impelido a justificar sua prática três vezes e a prometer que iria aderir às regras da IPA. Foi mais uma promessa que não cumpriu, levando à ira os ortodoxos da SPP. A situação ficou insustentável, até que Lagache, Dolto e Favez-Boutonier pediram demissão da SPP e fundaram a SFP (Sociedade Francesa de Psicanálise), instituição à qual se juntaram Lacan e diversos outros psicanalistas.

Seminários ministrados na SFP entre 1953-1963

  • ●  Seminário 1 – “Os escritos técnicos de Freud” (1953-54)
  • ●  Seminário 2 – “O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise” (1954-55)
  • ●  Seminário 3 – “As psicoses” (1955-56)

○ O Nome-do-Pai

  • ●  Seminário 4 – “A relação de objeto” (1956-57)
  • ●  Seminário 5 – “As formações do inconsciente” (1957-58)
  • ●  Seminário 6 – “O desejo e sua interpretação” (1958-59)
  • ●  Seminário 7 – “A ética da psicanálise” (1959-60)
  • ●  Seminário 8 – “A transferência” (1960-61)
  • ●  Seminário 9 – “L’identification” (1961-62)
  • ●  Seminário 10 – “A Angústia” (1962-63)

○ O objeto a

Os dez primeiros seminários elaboram noções fundamentais sobre a técnica psicanalítica, os conceitos fundamentais da psicanálise e a sua ética. Durante esse período Lacan escreve, com base em seus seminários, conferências e comunicações em colóquios, que constituem os principais textos encontrados em seus Escritos, de 1966. Os seminários atraem celebridades como Alexandre Koyré, Claude Lévi-Strauss, Maurice Merleau-Ponty, o etnólogo Marcel Griaule e Émile Benveniste, entre outros.

1962 – Membros da SFP querem ser reconhecidos pela International Psycho-Analytical Association (IPA). A IPA emite um ultimato: o nome de Lacan dever ser riscado da lista dos didatas. De início, a condição foi vista como um absurdo, mas em 1963, duas semanas antes do prazo final fixado pela IPA (31 de outubro), o comitê de didatas da SFP abandona sua corajosa posição de 1962 e se pronuncia a favor da proscrição: Lacan não é mais um dos seus didatas.

1964 — A Excomunhão (da SFP) – LER P. 21

Aqui cabe explorarmos um pouco as subversões de Lacan frente à prática analítica. Em suas análises, ele partia da pergunta “Que queres?”. Mesmo com sua fama de lista de espera, Lacan fazia questão de prontamente marcar um horário para aqueles que demandavam. Seus analisantes o percebiam extremamente receptivo, de uma gentileza extraordinária e presença atenciosa. As palavras tomavam um peso significativo através da sua escuta. Ele tinha a destreza de transformar a banalidade em objetos de trabalho, se ocupando em ouvir quem falava e não o que era dito. “Ele nos segurava por uma mão enquanto sacudia com a outra”. Sua brutalidade estava nos atos de interpretação, mas sua delicadeza sustentava a transferência e fazia a análise continuar.

A verdade sobre o inconsciente é sempre incômoda, por isso recalcamos. A psicanálise nos mostra o que não queremos ver e, portanto, não é para qualquer um — quanto mais próximos, menos queremos saber, porque isso implicará uma mudança. É por isso que Lacan desencorajava aqueles que o procuravam para um “autoconhecimento”. Isso não é o suficiente, algo precisa nos atrapalhar, fazer sofrer e intrigar. É sobre modificar o sofrimento, nunca curá-lo.

Seu consultório e horários eram caóticos propositalmente. Existiam dias em que sua sala de espera estava cheia, incentivando o convívio e subvertendo o tempo; e dias em que se podia entrar diretamente. Os que saiam das sessões não se separavam dos que entrariam, não existia uma porta especial como nos tempos de Freud. Alterou, assim, a relação entre o um e o todo, o dentro e o fora. Muitas vezes “esquecia” de fechar a porta ou suspirava alto, como uma intervenção no real, fazendo com que a fala de quem estava deitado no divã pudesse ser ouvida pelo lenga-lenga neurótico que era.

Seu consultório não era o que era esperado de um psicanalista, não era um setting asséptico como proposto pela IPA; gostava de provocar o inesperado para quebrar o imaginário construído ao redor do que deveria ser um analista e assim conseguir focar no sujeito. Também não seguia a tabela de preços proposta, decidia caso a caso. Dava um valor exorbitante de início, um que chocasse para que dessem valor ao trabalho ali feito. Quando os analisantes diziam que não tinham como pagar aquilo, Lacan pedia para pagarem o que tivessem/quisessem. Às vezes não cobrava nada, dependendo do desejo de análise. Isso porque o interesse dele era a psicanálise, nunca foi o dinheiro — isso delegava à sua secretária.

Lacan também levou a escuta psicanalítica aos hospitais psiquiátricos por meio de “apresentações de pacientes”, apresentações muito diferentes das ensinadas por Clérambault. De uma postura subversiva, não tentava provar em qual quadro clínico o paciente se encaixava nem provocar sintomas estereotipados para exemplificá-los. Seu objetivo era demonstrar do que se trata uma escuta da singularidade e possibilitar a um paciente, muitas vezes negligenciado, um testemunho de sua realidade com os ouvidos em seus auditórios.

1964 — Lacanianos indignados formam um Grupo de Estudos sobre Psicanálise organizado por Jean Clavreul, até que Lacan funda oficialmente a École Freudienne de Paris (EFP). Com o apoio de Lévi-Strauss e Althusser, ele é nomeado conferencista na École Pratique des Hautes Études.

1965 – Em janeiro Lacan inicia seu novo seminário, sobre“Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”, na École Normale Supérieure (ENS), após se recusar a continuar, como o planejado, com o seminário inédito “Os Nomes do Pai”. O Seminário 11 tem como primeiro capítulo “A Excomunhão”, onde Lacan questiona no que está autorizado e na provável dogmatização das escolas psicanalíticas de sua época. Sua audiência é composta por analistas e jovens estudantes de filosofia na ENS, notadamente Jacques-Alain Miller.

A preocupação de Lacan é com a formação do analista, questionando a ética e política da psicanálise vigente. A IPA obrigava aos médicos que queriam se formar a fazerem de 3 a 5 sessões de análise por semana, exclusivamente com um psicanalista autorizado e designado por eles. Era elitista por ser cara e só a instituição poderia autorizar um novo analista.

Ao encontrar asilo na École Normale Supérieure, fica claro que o ensino de Lacan não se prendia ao meio psicanalítico. Ele absorvia da linguística, da antropologia estrutural, das matemáticas, do existencialismo, do teatro e da filosofia clássica; então nada mais justo que todos os interessados pudessem ouvir o que Lacan transmitia. E em cada um dos diferentes participantes a fala dele reverberava algo, é esse o efeito equívoco da língua, que dá margem à criação.

É digno de nota que foi quando Jacques-Alain Miller propôs uma transcrição do Seminário 11 que Lacan finalmente autorizou a reprodução do que dizia. A leitura dos Seminários não pode ser algo fechado, não é um ensinamento linear e com um final. Ela nos provoca e, sem ser possível entender tudo, temos que passar para a seguinte lição (ou voltar à anteriores). É para ser algo vivo, que desperta algo e sempre falta.

1966 — Publicação dos Écrits, em Paris. O livro atrai considerável atenção para a EFP, estendendo-se muito além da intelligentsia. Os Escritos são compostos por artigos escritos pelo próprio Lacan entre e durante seus seminários. Em cada um deles podemos ver sumarizado os seminários que dava oralmente.

1967 — Lacan apresenta o Ato de Fundação da EFP; sua novidade reside no procedimento de passe. O passe consiste em atestar, diante de dois passadores, a própria experiência como analisando e especialmente o momento decisivo da passagem da posição de analisando para a de analista. Os passadores são escolhidos por seus analistas (geralmente analistas da EFP) e deveriam estar no mesmo estágio em sua experiência analítica que o passante. Eles o ouvem e depois, sucessivamente, atestam o que ouviram diante de um comitê de aprovação composto pelo diretor, Lacan, e algum AE, analista da escola. A função desse comitê é escolher os analistas da Escola e elaborar, depois do processo de seleção, um “trabalho de doutrina”.

1969 — A emissão do passe invade constantemente a vida da EFP. O “quatrième groupe” é formado em torno daqueles que se demitem da EFP contestando os métodos de Lacan para a formação e o credenciamento de analistas. Lacan toma uma posição na crise da universidade que se segue a maio de 1968. “Se a psicanálise não pode ser articulada como um conhecimento e ensinada como tal, ela não tem lugar na universidade, que lida somente com o conhecimento.” O diretor da ENS encontra um pretexto para dizer a Lacan que ele não é mais bem-vindo na instituição no início do ano acadêmico. Além disso, a revista Cahiers pour l’Analyse tem que deixar de ser publicada, mas Vincennes aparece como uma alternativa. Michel Foucault pede a Lacan para criar e dirigir o Departamento de Psicanálise em Vincennes. Graças a Lévi-Strauss, Lacan transfere seus seminários para a escola de direito no Panthéon.

  • ●  Seminário 17 – “O avesso da psicanálise” (1969-70)
    • ○  Divisor de águas – os quatro discursos
    • ○  Início da Segunda Clínica
  • ●  Seminário 20 – “Mais ainda” (1972-1973)
    • ○  Não existe a relação sexual
    • ○  A Mulher não existe
  • ●  Seminário 21 – “Les non-dupes errent” (1973-74) A COISA LACANIANA — O NÓ
  • 1974 — O Departamento de Psicanálise de Vincennes é renomeado como Le Champ Freudien com Lacan como seu diretor e Jacques-Alain Miller como presidente.
  • ●  Seminário 22 – “R.S.I.” (1974-75)
  • ●  Seminário 23 – “O Sinthoma” (1975-76)A CLÍNICA BORROMEANA

    1980 — Em 9 de janeiro Lacan anuncia a dissolução da EFP e pede àqueles que desejam continuar trabalhando com ele que declarem suas intenções por escrito. Recebe mais de mil cartas em uma semana. Em 21 de fevereiro, Lacan anuncia a fundação da escola La Cause Freudienne, mais tarde renomeada L’École de la Cause Freudienne.

    – Queriam judicialmente afastá-lo
    – Nem se podia dissolver a Escola sem 2⁄3 dos votos, ele só não se importou.”Sejam lacanianos se quiserem. Eu sou freudiano.” 


    1981 — Em 9 de setembro, Lacan morre em Paris.